Por que há um santo ortodoxo queimando a foto de Lênin?

Imagem gerada pela IA GEMINI


Texto de Raí José Maciel da Silva,
professor, escritor e editor, formado em Geografia (Licenciatura), Letras-Inglês (Licenciatura) e pós-graduado em Teologia.


Introdução


     Antes de entrarmos no tema, é preciso esclarecer que entre as Igrejas Ortodoxas que estão em comunhão parcial conosco, há também o costume da canonização de pessoas que trilharam uma vida de santidade, sendo que alguns santos são venerados apenas pelos católicos, outros apenas pelos ortodoxos e outros por todos. Já vimos um exemplo, como foi o caso dos Santos Mártires Coptas da Líbia, os quais o papa Francisco incluiu no martirológico romano.

    Diferentemente do protestantismo, onde o desligamento se deu por meio de uma ruptura, no caso dos ortodoxos, há o que chamamos de cisma, pois, embora eles não tenham o papa que conduz a Igreja Católica em Roma como chefe das Igrejas Ortodoxas, essas igrejas são consideradas verdadeiras, porém, em comunhão parcial conosco devido ao desligamento com Roma. Os cismas ocorreram em tempos antigos, diferentemente dos cismas atuais com toda a informação que temos hoje no que tange à questão da unidade. No caso dos Ortodoxos, eles consideram o papa católico como bispo legítimo, tal qual reconhecemos os ministros ordenados ortodoxos como validamente ordenados, pois não perderam a sucessão apostólica como no caso dos protestantes. Todo diácono, padre ou bispo ortodoxo das igrejas ortodoxas verdadeiras, vêm como os padres católicos da sucessão dos apóstolos de Jesus Cristo, isto é, se buscarmos saber o bispo que ordenou cada um do nosso clero ou do clero deles, em seguida verificarmos o bispo que ordenou aquele bispo e irmos voltando em sequência, chegaremos uma hora num dos 12 apóstolos.

    Para nós católicos, é necessário perseverar na unidade, porém, em caso de necessidade, é possível receber sacramentos e cumprir preceitos nas igrejas ortodoxas verdadeiros. Nosso compromisso é manter sempre a comunhão com Roma, pois nós, que tempos o pleno entendimento da necessidade da unidade e não fomos criados em famílias que cresceram no ambiente ortodoxo, devemos mantermos fiéis à Igreja em obediência ao papa, o sucessor de Pedro, mas temos um diálogo mais próximo com eles, pois embora o nosso desejo seja da plena união, só o fato de sabermos que se separaram em tempos mais antigos, e não por rixas de ritos como hoje, e porque nasceram em ambiente já em meio a toda uma tradição desde cedo e não é como outros que hoje saem da Igreja Católica criando cismas modernos com tanta informação em pleno século XXI, podemos então considerar os ortodoxos como nossos ''gêmeos''.

    Infelizmente, há católicos que deixam a Igreja Católica e vão para o Ortodoxismo, o que é incorreto para nós, pois, uma coisa é quem lá já nasceu e tem toda uma tradição, e inclusive é convidado a voltar para a unidade perdida lá no tempo de seus antepassados, porém, para nós, que já estamos na unidade, jamais devemos deixar a plena comunhão. No entanto, em caso real de necessidade, um católico pode cumprir o preceito de um dia santo de guarda numa igreja ortodoxa verdadeira ou até mesmo receber a absolvição dos seus pecados pela confissão, ou também receber a unção dos enfermos por um padre ou bispo ortodoxo em casos urgentes, se no lugar onde o fiel estiver, não houver uma igreja católica para ir à missa naquele dia ou não houver a presença de padres ou bispos católicos naquele lugar para ministrar sacramentos em risco de morte.


 O santo ortodoxo:


    Mas agora que tudo isso já foi explicado, vamos conhecer o santo ortodoxo, que embora não seja venerado pela Igreja Católica, mas sua imagem gera comentários nas redes sociais, por isso decidi comentar sobre ele.

    Como já explicado, não é santo oficial na nossa Igreja, isso significa que não foi para o Céu? De jeito nenhum, cremos que nossos irmãos ortodoxos também alcançam a salvação, porém, a questão da canonização exige a existência de milagres comprovados pela ciência, a confirmação da fé etc. No caso dos mártires coptas que reconhecemos, é porque santos mártires que morreram dando sua vida por Cristo, não há a exigência de milagres para a confirmação da santidade, o sangue por eles derramado é considerado o que lhes garante o Reino dos Céu.

    Gabriel Urgebadze nasceu na Geórgia e se tornou sacerdote na Igreja Ortodoxa da Geórgia, que é uma das Igrejas Ortodoxas verdadeiras em comunhão parcial conosco. Além de sua fama de santidade, sendo inclusive chamado de ''Louco por Cristo'', no bom sentido, ficou muito conhecido após protagonizar um episódio na qual queimou um cartaz de propaganda soviético com o retrato de Lênin. Ele se posicionava com a admiração exagerada ao líder do país, como se fosse uma idolatria; era crítico ao regime comunista introduzido por Lênin, o criador do Estado Soviético, a URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou simplesmente União Soviética, que pregava o controle forte do estado, confusão de valores familiares, como quando as crianças cantavam nas escolas ''meu avozinho Lênin'', entre outros pontos fortes do regime socialista que combatia a ideia de propriedade privada, liberdade de expressão e liberdade religiosa, o manifesto comunista chamava a religião de opróbio do povo entre tantas outras críticas que podemos citar. Diante disso, Gabriel queimou um cartaz de Lênin durante um desfile das comemorações do dia 1º de maio, dia do trabalho, no ano de 1965, em Tbilisi, capital da Geórgia. Foi preso e internado, sofreu torturas, foi tido como louco e depois liberto. Deu continuidade à sua vida sacerdotal, tendo uma vida santa como sempre, sem abrir mão dos valores que defendia, a verdadeira fé. Durante o ato disse: ''Não adorem Lênin, mas sim, Cristo crucificado!"



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