Sabemos ou não o nome da mãe de São José?
Eis que o patriarca da Sagrada Família, é filho de uma ilustre desconhecida, pois seu papel jamais pode ser esquecido, mas seu nome permaneceu historicamente silenciado, ela que é a mãe do homem do silêncio.
Introdução
Todos sabemos que São José é o pai adotivo de Jesus, esposo da bem-aventurada virgem Maria, operário, justo, patrono da Igreja e também, é conhecido por seu silêncio, não no sentido de omissão, mas de contemplação, que é justamente o que este texto proporciona, uma busca não histórica, dogmática ou teológica, mas ensaística, tipológica e sobretudo, meditativa, contemplativa das Sagradas Escrituras. Vale lembrar, que não é uma interpretação a gosto do consumidor, contrariando aquilo que a Igreja guardou pelos séculos dos séculos na tradição apostólica, na interpretação oficial do magistério, mas uma leitura complementar que nada atrapalha, pelo contrário, soma-se ao que a Igreja já nos proporciona.
Nenhuma tradição antiga da Igreja, nem em nenhum martiriológico, ou mesmo na tradição apócrifa, nos traz o nome da avó paterna de Jesus. Do lado materno, sabemos pela tradição e por escritos apócrifos, como o Evangelho do Nascimento de Maria e o Protoevangelho de Tiago, que os pais de Nossa Senhora chamavam-se Joaquim e Ana, tanto que temos hoje, a memória de ambos no dia 26 de julho - Memória de São Joaquim e Sant'Ana, pais da bem-aventurada virgem Maria, avós de Jesus. Por outro lado, quando olhamos para a linhagem de São José, sabemos pelo evangelho de São Mateus, que narra a linhagem sanguínea do justo José, que seu pai se chamava Jacó (Mt 1,1-17). Muitos às vezes se questionam porque na genealogia do Senhor no evangelho de São Lucas, São José é apresentado como filho de Heli (Lc 3,23-38): Isso se dá, porque naquela época, era cultura daquele povo, que caso o primogênito de uma família morresse sem deixar descendentes, que seu irmão, indo em sequência, do segundo mais velho entre os irmãos até o caçula, deveria se casar com sua viúva para lhe deixar o descendente. Heli se casou com a mãe de José, porém, faleceu sem deixar filhos; ela então, pela cultura da época, foi acolhida como esposa por Jacó, o segundo filho daquela família, portanto, o pai consanguíneo de José, porém, pela lei da época, o direito à paternidade era de Heli, seu irmão mais velho.
Agora já podemos começar a degustar um pouco dos mistérios de Deus: José, aquele que seria patriarca da Sagrada Família, porém, como pai adotivo de Jesus, pois Jesus é Filho de Deus; teve uma origem na qual teve um pai por direito e um pai que o gerou, assim como foi pai pela lei do Senhor, enquanto Nosso Senhor é o Filho de Deus Pai.
Jacó foi portanto, o pai biológico e também o pai de criação de José, e junto dele, não poderia estar outra pessoa, se não sua esposa, a avó paterna de Jesus, a qual o nome não sabemos. Nenhum teólogo dos primeiros séculos nos trouxe essa curiosidade à tona, deixando-nos um chamado silêncio providencial. O mais certo é que provavelmente, nunca saberemos historicamente, o nome oficial da mãe de São José, pois a Igreja tende a aceitar tradições antigas, até mesmo algumas tradições apócrifas que nada atrapalham a nossa fé, porém, ideias posteriores aos primeiros séculos, não provindas de tradições escritas ou orais dos primórdios do cristianismo, não entram como ensinamento da Igreja, tradição recebida, dado histórico, muito menos como dogma de fé; no entanto, é permitido que com responsabilidade, autores medievais, modernos e contemporâneos, desenvolvam meditações, ensaios espirituais, leituras tipológicas, cânticos teológicos etc, partindo de raciocínios pessoais individuais, que não visam difundir explicitamente uma devoção pública oficial, apenas apresentar uma leitura degustativa da Palavra sem alterá-la, mas sim, dando mais sabor dentro do que é permitido especular sem a fé contrariar. É nesse sentido que neste ensaio, apresento uma leitura pessoal, que não visa esgotar os questionamentos, apenas permitir que o leitor aguce sua curiosidade e busque um mergulhar na história sagrada da salvação, velejando na genealogia do Salvador.
Nome proposto: Raquel - Entenda agora o porquê
O nome não foi escolhido por acaso por ser bonito ou por alguma mera vontade pessoal, mas após a análise das Sagradas Escrituras em outros pontos, que encontrei sugestões para esta possibilidade.
1ª reflexão:
Quando olhamos para São José, vemos nele ecos de José do Egito, patriarca do Antigo Testamento, narrado no Gênesis, primeiro livro da Bíblia, que é filho da matriarca Raquel, esposa do patriarca Jacó, o mesmo nome do pai de São José.
A Bíblia possui mais ligações históricas tão precisas, mesmo tendo sido escrita com séculos e milênios de diferença do primeiro ao último livro, com tantos autores em tantas épocas e contextos, que nenhum livro escrito por uma só pessoa num único espaço de tempo e cultura, consegue se igualar. Vemos então nesta perspectiva, algo que poderia nos sugerir a pensar: Jacó e José, quem está faltando? Raquel! Porém, como nenhuma tradição antiga confirma oficialmente isso, a Igreja jamais confirmou o nome da avó de Nosso Senhor como sendo onomástica da esposa de Jacó de Isaque, mãe de José do Egito.
2ª reflexão:
Quando a matriarca do Antigo Testamento falece, é sepultada próxima a Belém (Gn 35,19), a terra onde Jesus nasceu e que pelos evangelhos apócrifos previamente mencionados, sabemos que é a terra da avó materna de Jesus, Ana, o que levou a escritores e cronistas da Idade Média em diante, especularem o mesmo nome da avó materna do Senhor, para sua avó paterna. Eu, porém, nesta reflexão, chamo atenção novamente para um fato, o qual abri este segundo pensamento: De que Belém é a terra em que fora sepultada a matriarca Raquel, o que ajudaria a sugerir ainda mais o nome da mãe de São José, até porque, quando o Rei Herodes manda matar todas as crianças com menos de dois anos naquela região, tentando assim matar Jesus (Mt 2,2-13-16), o mesmo evangelista, São Mateus, que narra Jacó como pai de Jesus, nos narra que Raquel, aquela do Antigo Testamento, chora a morte de seus filhos (Mt 2,17-18), ecoando o profeta Jeremias (Jr 31,15-17) que recorda a matriarca enterrada na terra de Ramá, onde se encontra Belém, na Judeia, aquela que no passado, chorou por seus filhos.
3ª reflexão:
São José, assim como José do Egito, o filho de Raquel, teve revelações de Deus em sonho, e tiveram que ir para o Egito, e ainda, foi lá que viveram grande parte da vida, sendo José do Egito um grande administrador daquelas terras e São José, aquele que no mesmo país futuramente cuidou da Sagrada Família de Nazaré, um grande administrador daquele lar sagrado. Jacó, o pai de José do Egito, mudou seu nome para Israel, que quer dizer: ''Aquele que luta com Deus'' e não contra Ele (Gn 35,1-15). Nomes eram escolhidos no nascimento com um significado e depois as pessoas mudavam conforme a missão que assumiam: Abrão e Sarai que se tornaram Abraão e Sara (17,1-22); Simão, que foi chamado de Pedro, que quer dizer ''pedra'', pois sobre essa pedra Deus edificou sua Igreja (Mt 16,13-19). Jacó assim se chamava, pois nasceu segurando o calcanhar de seu irmão gêmeo, Esaú, que por direito, deveria ter sido o filho sucessor de Isaque, mas comprou o direito de primogênito do irmão (Gn 25,19-34) e posteriormente com a ajuda de sua mãe Rebeca, Jacó/Israel tornou-se o sucessor abençoado pelo pai que já estava com problema de visão (Gn 27). Mais uma vez, vemos um irmão que deu sucessão no lugar do outro, o que abre maior espaço para a comparação.
4ª reflexão:
No livro de Rute, a bisavó do Rei da Davi, e note que no Evangelho de São Mateus, vemos Nosso Senhor ser chamado de Filho de Davi (Mt 21,9), quando ela se casa com Booz, é pedido como invocação a Deus por parte do povo e dos anciãos, que Rute entre para a família de Booz, como exemplo de esposa que foram Raquel e Lia (Rt 4,11). Mais uma vez então, o nome de Raquel e uma referência a Belém na referida passagem, seria apenas coincidência os nomes de Jacó e José serem os mesmos de Jacó/Israel e José do Egito, e o nome da mãe do pai adotivo do Salvador não ser por divina providência também igual à tão mencionada matriarca?
5ª reflexão:
Raquel significa ''ovelha'', um termo que nos adoça a boca a pensar no cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo (Jo 1,29). O cordeiro imolado, Nosso Senhor, que nos tira o pecado. Não seria já a avó do Salvador uma ovelhinha silenciosa em seu redil, que antes mesmo da fundação da Igreja a nível temporal, do rebanho do bom pastor (Jo 10,11-18) já pertencia como primícias, estando em seu meio, mesmo em silêncio orante. Sabemos que as Sagradas Escrituras não se esquecem das avós, como vemos na 2ª Carta de São Paulo a Timóteo, o apóstolo dos gentios nos narra que foi de sua avó Loide e sua mãe Eunice, que São Timóteo recebeu a fé (2Tm 1,5). Não seria a ''ovelhinha'' quietinha, preparando o homem do silêncio, para deixar o ''cordeiro'' falar e seu povo guiar?
Conclusão:
Enfim, após várias reflexões, muitas ajudando a sustentar o nome que resolvi considerar, nenhuma oficialmente confirma como tradição explícita a se divulgar como verdade inquestionável de fé, porém, quando olhamos para alguns santos e quem dirá que a mãe do patriarca da Sagrada Família, a avó de Nosso Senhor, não é uma santinha que por nós intercede noite e dia? Certos nomes de alguns santos, vieram não como nome oficial, mas a eles atribuídos pela situação em que se santificaram. Santo Adauto tem esse nome por Adauto significar ''adjunto'', pois foi um também ilustre desconhecido, que vendo o padre e hoje também santo, São Felix, sendo levado para o martírio, foi o único a defendê-lo, e por isso, foi levado pelos algozes junto dele - Por ter ido junto, é o Santo Adjunto - ''Adauctus'' em latim. São Dimas, o nome do bom ladrão crucificado ao lado de Cristo, vem de ''Dismas'', que é ''aquele que nasceu no pôr-do-sol'', pois no último minuto, nasceu para Deus. Como podemos ver, o nome inicial já não é mais importante quando o nome missionário ocupa o seu lugar, tal qual o nome dos papas e tantos patriarcas. Por isso, concluo aqui, sem querer obrigar ninguém nesse pensamento a me seguir, pois é um pensamento por mim desenvolvido, embora alicerçado em argumentos com cuidado esclarecidos. Para mim, independente do nome de nascimento que teve esta serva fiel, pela via de sua santificação, a chamo de a nova Raquel.
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