A Igreja já apontou oficialmente alguma pessoa que teria ido para o Inferno?

(Imagem gerada pelo Chat GPT)

Texto de Raí José Maciel da Silva,
professor, escritor e editor, formado em Geografia-Licenciatura, Letras-Inglês
e pós-graduado em Teologia.


    A resposta oficial é não! A Igreja aponta pessoas que já foram para o Céu, que são aqueles servos de Deus que a Igreja os torna veneráveis, beatifica e canoniza, porém, a Igreja nunca afirmou oficialmente que alguém (pessoa) esteja no Inferno.

    Isso também não significa dizer que o Inferno não exista ou que está vazio. Da mesma forma que é incorreto negar a existência do Inferno e dizer que ele está vazio, também é incorreto dizer que esteja cheio, como muitos gostam de dizer. Visões místicas que alguns santos e beatos tiveram, tratam-se de visões particulares, as quais a Igreja aceita como catequese (teologia do medo, cuidado com como está levando a sua vida etc), mas não como dogma de fé, onde acreditar é facultativo, o importante é apenas o ensinamento de sermos mais cautelosos com o que fazemos, como vivemos etc. Frases como de santos que conversaram com almas perdidas ou no Purgatório, visões de almas no Inferno, testemunhos de santos e beatos que dizem já terem ouvido dizer que alguém só sairia do Purgatório no fim dos tempos, podem ser aceitos na tradição popular, mas não necessariamente como crendo realmente que são situações verídicas, mas podendo crer-se que sejam situações catequéticas que por meio do medo, fazem com que pessoas se convertam. Infelizmente, muitos irmãos só se convertem por puro medo, por isso a Igreja aceita a teologia do medo do Inferno como lícita para evangelizar.

    A Igreja só afirma que há no Inferno, anjos maus, aqueles anjos rebeldes que desertaram junto do líder mau, chamado de príncipe das trevas, porém, em se tratando de seres humanos, não há confirmação oficial por parte da Igreja de nenhuma pessoa que tenha ido para lá, embora a Igreja não negue que haja sim a possibilidade real de pessoas se perderem e irem para a perdição eterna.

    Nem mesmo Judas Iscariotes é oficialmente apontado como que teria ido para o Inferno, muitos teólogos defendem a tese de que não se sabe exatamente sobre isso, pois embora ele tenha tomado o caminho da perdição ao trair Jesus e inclusive, ao invés de pedir perdão como Pedro, preferiu tirar a própria vida; com o avanço da ciência e o entendimento que muitas pessoas infelizmente tiram a própria vida em estado alterado de consciência não respondendo por si, não cabe a nós criar juízo de valor, embora sim, podemos utilizar o exemplo dele como o caminho que ninguém deve tomar.

    A Igreja segue utilizando o exemplo de Judas Iscariotes como ensinamento para como não devemos agir: Jamais devemos trair a Cristo e sua Igreja e mesmo quando erramos, independente do pecado, devemos nos arrepender e pedir perdão, jamais uma pessoa poder querer morrer no erro e ninguém pode tirar a própria vida. É possível que Judas tenha se arrependido no último minuto? Sim! Porém, não sabemos! Muitos alegam que o fato de ter desistido de pedir perdão, seja sinal de prepotência, arrogância, afirmando assim que a perdição na Terra, o levou à perdição eterna, mas, existem outros que alegam que só o fato do referido apóstolo ter se desfeito das 30 moedas de prata, sendo tão ganancioso, como vimos na passagem onde queria o dinheiro do perfume de nardo puro que Maria de Betânia utilizou para lavar os pés do Senhor (Jo 12,3-8), só o fato de com tanta sede pelo dinheiro, se desfazer do mesmo, representaria um arrependimento tão grande, que poderia tê-lo levado à loucura e ele parou de responder por si quando se deu conta do tamanho mal que fez. Enfim, a Igreja não afirma nem pelo sim, nem pelo não, apenas que seu caminho não deve ser copiado: ''Fique deserta a sua morada, e não haja quem nela habite!'' (Sl 68/69,26; At 1,20).

    O próprio Jesus quando fala do Inferno, porque como Deus, sabe que há pessoas que precisam da teologia do medo para se converterem, nunca fala o nome de ninguém específico que teria ido para lá. Na parábola do pobre Lázaro e do rico mau, por exemplo, Jesus cita o nome do pobre leproso: ''Lázaro'', cita o nome do patriarca ''Abraão'', ambos no limbo dos justos ou mansão dos mortos à espera do Céu definitivo após a Páscoa de Nosso Senhor; e o rico mau, que estava na perdição, não tem seu nome divulgado, só é apresentado como um homem rico que esbanjava seus bens sem se preocupar com ninguém e sem observar as leis de Deus (Lc 16,19-31).

(Imagem em domínio público disponível na Wikimedia commons)

    Quando vemos em iconografias como a dos santos 40 soldados mártires de Sebaste, o único que apostatou, não tem seu rosto representado na imagem, mas sim, apenas o restante de seu corpo. Ele aparece entrando no local onde receberia o banho de água quente enquanto que os outros 39, mais um soldado que desertou do Império Romano e recompôs o grupo dos 40, aparecem com os rostos visíveis na imagem.

    Este texto não visa colocar medo em ninguém, tampouco visa suavizar o compromisso na fé. Não temos uma resposta pronta, estamos diante de uma incógnita, porém, devemos nos lembrar que, independente do medo de ir para o Inferno ou não, devemos buscar a Deus por amor e não por pressão. O ideal seria, que mesmo que o próprio Jesus nos dissesse como disse para o bom ladrão, São Dimas, que após pedir perdão, Jesus o canoniza em vida dizendo: ''Ainda hoje estarás comigo no paraíso'' (Lc 23,43); mesmo que o Messias nos dissesse que independentemente do que fizéssemos de agora em diante, nossa salvação estaria garantida, ainda assim, deveríamos observar seus mandamentos e preceitos, fazer o bem, amando a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos; não por obrigação, mas por puro amor. É isso que Nosso Senhor espera de nós, pois seus mandamentos não são uma grade de prisão, mas uma cerca de proteção para nós.



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