Relíquias - Veja a base bíblica

Texto de Raí José Maciel da Silva,
professor, escritor e editor, formado em Geografia(Licenciatura), Letras-Inglês (Licenciatura) e pós-graduado em Teologia.

Introdução


    O costume das relíquias remonta ao Antigo Testamento, e as Sagradas Escrituras nos trazem vários episódios os quais Deus operou milagres por meio de objetos, roupas, ossos e até o passar pela sombra de pessoas santas.

    Temos exemplos de objetos como a arca da aliança, as tábuas da lei, a vara de Aarão que floresceu, o cajado de Moisés objetos sagrados do santuário, o maná no deserto, o manto de Elias, os ossos de Eliseu, a sombra de São Pedro, os aventais dos apóstolos e claro, a túnica do próprio Senhor, pois mesmo nas relíquias dos santos, quem opera o milagre é sempre Ele, e por meio dos santos, porque eles estão unidos plenamente nEle.


O cajado de Moisés


    Deus manda Moisés lançar o cajado no chão e ele se transforma numa serpente (Ex 4,2-5); Moisés ergue o cajado sobre o mar e Deus age abrindo o Mar Vermelho (Ex 14,16); durante um enfrentamento com os amalecitas, quando Moisés mantia os braços erguidos com o cajado nas mãos, seu povo vencia, ao abaixar, começavam a perder e quando sob a instrução divina, Moisés toma o cajado e fere a rocha, que jorra água.


Arca da Antiga e da Nova Aliança

e a Terra Santa


    No livro do Êxodo, vemos as orientações para a construção da arca da aliança (Ex 25,10-16), tal qual para as imagens dos querubins que foram postas sobre ela (Ex 25,17-22), e dentro da arca da aliança, posteriormente foram colocadas outras relíquias (Hb 9,4), como o bastão de Aarão que floresceu (Nm 17,16-26) um pouco do maná num vaso de outro (Ex 16,32-34), isto é, do pão sem fermento que Deus concedia ao povo peregrino no deserto, além ainda principalmente, as tábuas da lei (Ex 31,18), o que fazia a presença da arca ser entendida como a real presença do Senhor.

    Quando comparamos as descrições da movimentação da arca da antiga aliança com Maria no novo testamento, já vemos um olhar para além dos objetos que Deus mandou que fossem criados e o que concedeu diretamente ao seu povo, mas sim, o corpo humano, uma vez que Deus se fez homem, santificando nossa condição humana outrora decaída pelo pecado.

    Quando pela ação do Espírito Santo, Maria gera o Filho do Homem, vemos agora Deus Filho que continua 100% divino, mas também passa a ser 100% humano, e sua humanidade vem da humanidade de Maria. Na narração de São Lucas, quando o evangelista fala da visita de Maria a sua prima Santa Isabel, podemos ver claramente uma associação com a arca da antiga aliança: Maria percorre a região montanhosa da Judeia como a arca nos tempos de Davi (Lc 1,39; 2Sm 6,2-3), Isabel questiona como pode a mãe do seu Senhor, isto é, do seu Deus, ir à sua casa, como outrora Davi questionou como a arca do Senhor poderia ir até ele (Lc 1,42-43; 2Sm 6,9); a arca é então levada para a casa de Obed-Edom, e fica lá 3 meses, o mesmo tempo que Maria ficou na casa de Isabel (2 Sm 6,11; Lc 1,56); João Batista salta no ventre de Isabel diante da presença de Maria que trazia consigo o Salvador, como o Rei Davi saltou e dançou diante da arca da aliança (Lc 1,41.44; 2Sm 6,16) que carregava as tábuas da lei, ou seja, a palavra escrita, sendo que Jesus é agora o verbo encarnado (Jo 1,14).

    E quem ainda precisa de mais comprovação bíblica para entender que Maria é a arca da nova aliança, basta observar no Apocalipse, que ao abrir o santuário de Deus que está no Céu, estava ali a arca da aliança (Ap 11,19), e em seguida vem a descrição da mulher vestida de sol, isto é, revestida de Cristo, com a lua debaixo dos pés, ou seja, acima do tempo, na glória, onde o tempo não existe mais, logo passado, presente e futuro coexistem (Ap 12,1), por isso é vista ao mesmo tempo grávida, pronta para dar a luz (Ap 12,2), e o seu filho já visto como aquilo que veio para governar o mundo com cetro de ferro, mas que depois foi para junto do Pai (Ap 12,5), e quando estava para nascer, o dragão, usando as diademas, que eram as coroas de louro que os imperadores usavam, estava esperando para devorá-lo (Ap 12,3-4), como vimos Herodes perseguindo todas as crianças com menos de 2 anos tentando pegar Jesus (Mt 2,16).

    Se a arca da antiga aliança foi uma relíquia do passado, e dentro dela já haviam outras relíquias de Deus como as tábuas e o maná, além de uma relíquia de um santo, o cajado de São Moisés, como não seria uma relíquia o corpo da bem-aventurada virgem Maria, que foi o santuário, o primeiro sacrário vivo a transportar o Salvador durante 9 meses. E como você já deve ter ouvido tantas pessoas dizerem: Se a terra que Jesus pisou é chamada de Terra Santa, imagine o ventre em que ele foi gerado! Maria em comparação com a arca da aliança e a Terra Santa, mostra-nos um precedente bíblico pelo qual hoje veneramos as relíquias dos santos, como as relíquias dentro da arca, a própria arca da antiga aliança, e até hoje, vemos as pessoas das mais diversas vertentes cristãs, que valorizam a água do Jordão que Cristo foi batizado, pequenas quantidades de terra de Israel e Palestina, pedras da Terra santa, madeira, plantas etc.

Pequeno frasco contendo água da gruta de Lourdes, na França


A serpente de bronze


    No livro de Números, vemos que após o povo se queixar contra Moisés e contra Deus e estarem experimentando a triste realidade das picadas de serpentes venenosas no deserto, eles pedem a intercessão de Moisés, que intercede a Deus por eles e Deus manda que ele construa uma serpente de bronze e a coloque numa haste, onde quem para ela olhasse, ficasse curado (Nm 21,4-9). Note que Deus não manda fazer uma imagem de águia, gato ou outro animal que come a serpente, mas a própria serpente, como hoje fazemos as imagens dos santos mártires com o instrumento do martírio, assim como São Paulo nos explica o porquê dos crucifixos que hoje utilizamos, pois pregamos o Cristo Crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos (1Cor 1,23), sendo que também o próprio Jesus em seu diálogo com Nicodemos, já se prefigura na serpente de bronze, dizendo que assim como ela foi elevada no deserto, o Filho do Homem também deveria ser elevado para o perdão dos pecados, e assim foi na cruz, não mais para curar as feridas apenas do corpo como no caso da serpente, mas as feridas da alma causadas pelo pecado (Jo 3,14-15).

    Veja também que Moisés intercedeu a Deus pelo povo. Jesus é nosso único mediador no que tange à salvação, mas no que tange às graças, vemos a intercessão dos santos, como também os apóstolos intercediam pelo povo e eles alcançavam graças em nome de Jesus. E antes que os críticos à intercessão dos santos questionem que Moisés e os apóstolos estavam vivos, lembre-se que quem morre em Deus, este viverá, pois Ele é a ressurreição e a vida (Jo 11,25-26), quem perde a vida por Ele, a encontrará (Mt 10,39; Jo 12,25). E temos inúmeras passagens que mostram que as pessoas que o seguiram estavam na Glória como quando vemos na Transfiguração, Moisés e Elias às portas do Reino dos Céus (Mt 17,1-9; Mc 9,2-8 Lc 9,28-36), e assim como a narração de Maria no Apocalipse, é pelos apóstolos terem os visto como passado, presente e futuro coexisitindo que o reconheceram, se não como saberiam que eram Moisés e Elias, se naquele tempo não havia foto? Vemos também Jesus dizendo a São Dimas, o bom ladrão, que ainda naquele dia estaria com Ele no paraíso (Lc 23,43) e não só no fim dos tempos! Também, na parábola do pobre Lázaro e do rico mau, vemos o diálogo de Abraão com o rico mau, onde entre aquele grande abismo entre eles, sabiam que os irmãos do rico mau haviam ficado vivos na Terra, e eles já estavam nas realidades eternas, sendo Abraão e Lázaro na Glória e o rico mau na perdição (Lc 16,19-31). Por mais que alguém alegue que sejam apenas parábolas, visões, figuras de linguagem, Jesus nunca usou parábolas e figuras de linguagem para falar de reencarnação e outros elementos incompatíveis à nossa fé só para ensinar uma moral de história, mas ainda que fosse apenas uma história para no final ter uma moral, ela necessariamente conta sempre com situações que podem ocorrer na realidade e não coisas impossíveis.


Elias e Eliseu


    Mais uma relíquia que pertenceu a um santo e mais uma menção ao corpo de um santo.

    Quando Elias tem sua páscoa e é elevado aos Céus, Eliseu toma o manto que ele havia deixado cair, e com um golpe utilizando a peça, as águas se abriram para que ele pudesse atravessar (2Rs 2,9-14). O milagre ocorreu porque foi Elias quem realizou? Não! Quem realizou foi Deus! Mas por que com o manto de Elias? Como prova da santidade do profeta, uma vez que Deus confirma seus santos, como outrora já havia dito no livro de Levítico: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo (Lv 11,44a-45b; Lv 19,2). O convite à santidade é para todos, e Jesus nos explica o que é ser santos, quando diz: Sede perfeitos como vosso Deus e Pai é perfeito (Mt 5,48). Sabemos que não somos 100% perfeitos neste mundo, mas devemos buscar ao máximo seguir o que Deus nos orienta; e com relação aos santos de Deus, que são as pessoas que se colocaram nessa caminhada, Deus pode operar milagres pelas relíquias dessas pessoas, para mostrar que vale a pena trilhar o caminho de Deus como elas trilharam, porque na sua páscoa, estará junto de Deus na Glória eterna como elas estão. O tocar em algo que se conecta a alguém que está junto de Deus, é se conectar com alguém que está na Glória, não comunicação com o além como prega o Espiritismo, mas se conectando com Deus diretamente, por meio de algo que pertenceu a alguém que hoje está plenamente nEle.

    Posteriormente, pelos próprios ossos de Santo Eliseu após sua páscoa, que Deus realiza um milagre, para mostrar que como Eliseu seguiu Elias, alguém que estava junto de Deus, também quem seguisse Eliseu, que não é outro caminho, como Elias também não foi, mas pessoas que trilharam o caminho de Deus, e nos apontam para Ele, é caminhar em direção ao Céu seguindo os exemplos daqueles que nos precederam na fé. Quando um morto é sepultado e seu corpo toca os ossos de Santo Eliseu, ele tem a vida revitalizada e se levanta (2Rs 13,20-21). É Eliseu realizando o milagre? Não! Mas Deus confirmando a fé de Eliseu e mostrando que devemos observar o exemplo das pessoas que ele suscita para nos ensinar como segui-lo, ouvindo seus ensinamentos e vivendo na mesma busca por cumprir a vontade divina.


O próprio Jesus


    Deus sempre existiu na condição divina, mas na plenitude dos tempos se fez homem. Não sabíamos como era Deus, mas Jesus nos revela que quem o vê, vê o Pai (Jo 14,8-10). Quando Deus se faz homem e habita no meio de nós, confirma mais ainda que somos imagens e semelhança de Deus. E o próprio Jesus, enquanto caminhou como homem no meio de nós, operou milagres a quem se aproximava dele, e a distância, como também por meio do toque de suas mãos, e ainda, por meio do toque de outras pessoas às suas vestes, como a mulher com hemorragia (Mt 9,20-22; Mc 5,25-34; Lc 8,43-48) e outros enfermos (Mt 14,34-35).

    Quando Nosso Senhor assume nossa humanidade, esta que era decaída pelo pecado, se dignifica nEle, por isso hoje somos chamados de templo e sacrário do Espírito Santo (1Cor 3,16-17; 1Cor 6,19-20). No caso dos corpos incorruptos dos santos que vieram depois de Cristo, é Deus agindo para mostrar como bem viveram aquelas pessoas e como fizeram bem feito o conservar seu corpo como templo e sacrário do Santo Espírito.


Apóstolos e o primeiro papa


    São Paulo também nos narra que muitos alcançaram graças tocado lenços e aventais dele, que era apóstolo (At 19,11-12). E vemos que no caso de São Pedro, o primeiro papa, aquele que Jesus confiou as chaves do Reino dos Céus ao fundar sua Igreja e conferiu a autoridade do que ele ligasse ou desligasse na Terra seria respectivamente ligado ou desligado no Céu (Mt 16,18-19): este quando passava, as pessoas iam ao seu encontro e inclusive pessoas acamadas e outros doentes eram levados ao caminho para que pelo menos a sombra de São Pedro passasse por eles, para assim alcançarem a cura (At 5,15-16). E hoje, quantos comentários vemos questionando a presença dos fiéis para receberem o papa, ou até mesmo questionando as bênçãos apostólicas que fiéis pedem por ocasião do aniversário, do batismo, da crisma, do casamento ou das bodas, ou sacerdotes que pedem bênçãos para a ordenação ou jubileu de ordenação; bênçãos essas concedidas pelo sumo pontífice, isto é, aquele faz essa ponte entre o Céu e a Terra, por um desejo do próprio Cristo.

(Bênção apostólica conferida pelo papa Leão XIV por ocasião do meu aniversário de 30 anos em 14 de setembro de 2025, que coincide inclusive é o mesmo dia de aniversário do sumo pontífice - Festa Litúrgica da Exaltação da Santa Cruz)


Relíquias dos tempos modernos


    Hoje vemos relíquias diversas como pedaços da cruz de Cristo, como uma farpinha que fica na torre da Basílica e Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida SP; como também lugares que trazem espinhos da coroa de Cristo. Relíquias do próprio Senhor, que milagres já foram alcançados, como no tempo em que a Vera Cruz foi encontrada por Santa Helena, junto das outras duas cruzes dos que foram crucificados com Cristo, onde um enfermo que tocou as duas cruzes dos dois homens, não ficou curado, mas ao tocar a cruz de Jesus, ficou completamente curado.

    Vemos o cinto de Nossa Senhora entregue a São Tomé, que fica na catedral de Prata na Itália, tal qual o pozinho com similaridade láctea extraído de uma caverna na Terra Santa, onde conta-se a tradição que uma gotinha do leite puro e imaculado de Maria caiu enquanto ela amamentava o Menino Deus em Belém, fazendo com que toda a caverna fosse revestida com essa substância, que casais do mundo inteiro tomam junto de água e/ou leite e têm obtido a graça de ter filhos.

Ícone de Nossa Senhora do Leite vindo da Terra Santa, contendo um pouco de um pozinho de similaridade láctea, de uma caverna onde conta-se que Nossa Senhora ao amamentar Jesus, teria deixado caído uma gota de seu imaculado leite e todo aquele local ficou revestido de uma substância de concistência láctea.

    Vemos os crâneos de santos como o de Santa Águeda e Santa Maria Madalena, corpos de santos completamente incorruptos sem nenhuma técnica utilizada nesses casos, o sangue de São Januário que se liquefaz cerca de 2 vezes ao ano, a rótula amassada de Santo Antônio de tanto ter ficado de joelhos, sinal de fé e conexão com Deus, como sua língua, que tanto usou para evangelizar e também se encontra incorrupta, fios de cabelo de São Carlo Acutis, objetos que foram dele como o computador, onde foram encontradas só coisas santas e nada de errado, objetos que foram tocados nas relíquias de santos papas da Igreja como São João Paulo II.


Pequeno pedaço de tecido - Relíquia da Beata Nhá Chica


Broche (frente e verso) tocado nas relíquias de São João Paulo II


    Temos ainda pedras da caverna onde São Miguel Arcanjo apareceu numa visão na Itália, isto é, onde Deus permitiu aquele contato com o chefe da milícia celeste, portanto, onde o arcanjo pisou neste mundo. Enfim, temos inúmeras relíquias, como tecidos que fizeram parte da roupa de pessoas servas de Deus, veneráveis, beatos e santos, ou seja, pessoas que muitos tem a nos ensinar sobre o que é a santidade e a busca pela perfeição e hoje na Glória junto dEle, intercedem a Deus por nós, pois quem está nEle, mesmo que morra, viverá.


Pequeno fragmento de pedra de Gargano, na Itália, local da aparição de São Miguel Arcanjo



Conclusão


    Deus continua operando milagres, concedendo graças a todos que buscam seguir o seu caminho - o caminho, a verdade e a vida - que nos leva ao Pai, que é Jesus Cristo, o Salvador (Jo 14,6), e nada melhor que nos orientarmos com quem bem já fez esse percurso, que são nossos irmãos que agora já estão junto de Deus. É olhando para a vida deles, como seguiram tão fielmente a Cristo, que ganhamos forças para continuar, e tudo o que permanece na terra e que um dia esteve unido a eles, que hoje estão plenamente unidos a Deus no Céu, nos conectam com tamanha harmonia à realidades celestes, porque junto deles, tudo o que fazemos é por Cristo, com Cristo e em Cristo (Rm 11,36), a Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém!



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