Quem é Santo Elias, profeta, pai da ordem do Carmelo?
Texto de Raí José Maciel da Silva,
professor, escritor e editor, formado em Geografia (Licenciatura), Letras-Inglês (Licenciatura) e pós-graduado em Teologia.
Introdução
Acredito que a grande maioria dos cristãos conheça o profeta Elias cuja história é contada nos livros de Reis no Antigo Testamento, porém, pode soar diferente para a maioria de nós vê-lo com o título de Santo Elias, e sim ele é santo da nossa Igreja, pai da ordem carmelita, e sua memória é celebrada no dia 20 de julho.
A ordem do Carmelo talvez seja amplamente conhecida pela maioria dos católicos pela devoção do uso do escapulário, devoção esta que São Simão Stock recebeu da virgem Maria durante uma visão que o santo teve de Nossa Senhora em 1251; porém, a ordem é muito mais antiga e tem muito mais história antes do referido episódio, este tendo ocorrido pela intercessão da virgem Maria a Deus durante um período em que a ordem passava por vários problemas. Ela como mãe traz sempre vem consolar os filhos em situação de aflito.
Voltando agora no Antigo Testamento, antes mesmo da ordem do Carmelo se tornar uma ordem religiosa católica, ainda no contexto da Antiga Aliança, houve a formação dos primeiros discípulos do profeta santo Elias, sendo estes os primeiros eremitas carmelitas. Apenas no contexto da Nova e Eterna Aliança, isto é, depois de Cristo, é que os carmelitas transicionaram do Judaísmo para o Cristianismo, pois compreenderam que Maria era a virgem esperada, prefigurada naquela nuvenzinha branca outrora avistada pelo profeta Elias e seu ajudante Acab, e Jesus era o Messias esperado, o Salvador.
Vida e missão do profeta Santo Elias
Elias nasceu em Tesbi e habitou em Galaad, seu nome significa: ''O Senhor é meu Deus''. O profeta assumiu o chamado do Senhor e fez de sua vida uma entrega à vocação de anunciar o Deus único e verdadeiro, combatendo o culto aos baais e aserás pagãos (senhores(as)/deuses(as) inexistentes), tal qual denunciar os pecados cometidos pela sociedade da época. Como os demais profetas, anunciou e denunciou sem medo.
Os profetas foram inspirados por Deus a anunciar a fé no contexto da Antiga Aliança, preparando os corações para a chegada do Messias que cumpriria a promessa e instituiria a Nova e Eterna Aliança. Nessa missão, anunciavam a verdade recebida do Pai pela ação do Espírito Santo, afim de suscitar a conversão do povo de Deus para a chegada do Filho do homem, tal qual denunciavam os pecados cometidos pelo povo para que se tocassem e buscassem uma mudança de vida.
Aqueles que bem ouviram os profetas e se converteram no contexto da Antiga Aliança, também são santos de Deus, sendo elevados ao Céu no sábado santo, quando Jesus desceu à mansão dos mortos e os resgatou para a Glória eterna.
Vale lembrar, que tanto os profetas como o povo como um todo, não devem ser analisados dentro da nossa concepção de mundo atual, muitos atos da vida deles. Algumas falas como quando dizem que o Senhor se encolerizou, ou quando dizem que algo foi castigo de Deus, na verdade são consequências dos próprios atos do povo, mas Deus quer sempre a conversão e a salvação, embora isso só tenha ficado mais claro com a encarnação do verbo divino, isto é, o nascimento de Jesus, quando já não só homens falavam por inspiração divina, porém, limitados por sua compreensão humana, mas sim, o próprio Deus feito homem falando.
A missão do profeta Elias começa numa época em que o Reino de Israel, sob o governo do Rei Acab, passou por uma grande seca, onde a terra ansiava pela chuva, como canta a música ''Terra seca'', de autoria do irmão Samuel e popularizada na interpretação do Padre Ailton Cardoso, ambos da Fraternidade São João Paulo II. Essa terra seca prefigurava o coração da humanidade que ansiava pela chegada do Messias, para nos salvar, como aquela terra precisava da chuva para ser como se diz popularmente ''a salvação da lavoura''.
A seca foi anunciada por Elias como seu primeiro ato como profeta. Como o rei e povo não ouviram as palavras do santo logo no início, Deus o inspirou a se abrigar próximo a um córrego que ficava perto do Rio Jordão, onde o saciou enviando-lhe alimento por meio dos corvos. Quando a água ali acabou, Deus o inspirou a ir para Sidônia e pedir alimento a uma viúva, momento o qual Deus preparou para Elias começar a ser reconhecido como profeta do Senhor.
A referida viúva deu água a Elias, mas disse que não poderia dar-lhe pão, pois a farinha e o azeite estavam no fim e ela tinha um filho. Elias, porém, a encorajou a lhe dar o alimento, na confiança de que o Senhor não deixaria faltar comida em seu lar. Ela assim o fez e teve sobra para ele, para ela e para o menino.
Outro sinal logo veio naquele contexto, foi quando o menino adoeceu e desfaleceu. A priori, a mulher pensou que aquilo estava relacionado com a presença de Elias, porém, foi o contrário, o profeta foi um enviado de Deus para alcançar a cura para o jovem, suplicando o referido milagre a Deus. Elias o levou para o quarto superior, elevou-o em direção ao Céu por 3 vezes suplicando a Deus pela sua vida e o Senhor recuperou a vida e a saúde ao garoto por intercessão do santo, que foi ali então reconhecido como profeta por aquela mãe.
Novamente inspirado por Deus, Elias se encontra mais uma vez com o Rei Acab e dessa vez propõe ao monarca um desafio a ser realizado no Monte Carmelo, desafio este proposto a todos ditos profetas da época.
Todo o povo foi convocado e todos os 450 supostos profetas de baais que anunciavam diversos deuses diferentes foram chamados para o desafio, assim como 400 profetas de aserás (deusas). O desafio consistia em oferecer dois bezerros em sacrifício e inclusive os profetas poderiam escolher qual dos dois queriam, porém, nem ele e nem os profetas colocariam fogo nas vítimas, mas sim, rezariam ao seus deuses e o Deus verdadeiro providenciaria.
Aceito o desafio, por mais que os profetas de baais e aserás tentassem rezar para seus deuses, não eram atendidos. Alguns deles chegaram até a se cortar tirando sangue em sacrifício, mas nenhum sinal divino ocorreu durante todo o dia. Elias, porém, mesmo ordenando que água fosse jogada em seu bezerro, rezou por 3 vezes ao Deus verdadeiro e o fogo veio secando até o excesso de água, o que levou o povo a cair por terra louvando o único e verdadeiro Deus que o profeta anunciava.
Confirmando a fé no verdadeiro Deus, Elias foi finalmente reconhecido como profeta pelo rei e pelo povo, portanto, o único profeta que poderia interceder em favor daquela região pedindo a Deus pela tão esperada chuva.
Elias sobe então o Monte Carmelo e reza a Deus, logo em seguida pede a seu ajudante que subisse por 7 vezes até que na última, o rapaz afirma ver uma nuvenzinha que em sua pequenez, trouxe toda a chuva que tanto precisavam. Essa nuvenzinha pequena foi interpretada pelos futuros carmelitas a partir dos tempos de Cristo como uma prefiguração da virgem Maria, a mãe do Carmelo, que mesmo se descrevendo pequena diante de Deus no cântico do Magnificat, trouxe em seu ventre o Messias, isto é, a Salvação, como outrora a nuvenzinha trouxe a chuva que foi a salvação da lavoura, que curou aquela terra árida, como Cristo nos salvou na cruz da mancha de nossos pecados. Maria, porém, foi preservada de toda mancha do pecado para nos trazer ao mundo o Salvador, outro sinal prefigurado naquela nuvenzinha branca, isto é, sem mancha, anunciando a virgem imaculada.
Mais uma vez num monte, mas dessa vez no Monte Horeb, Deus se manifestou a Elias, deixando como lição para nós que Deus age no silêncio, nos pequenos sinais, na calmaria e não em grandes espetáculos: Houve um furacão, um terremoto e posteriormente veio um fogo, mas Deus não estava em nenhum dos três, mas sim, por fim, Deus se manifestou numa voz de brisa suave. Naquele tempo antes de Cristo, obviamente não existia a Santa Missa, mas hoje que sabemos que a mesma é o momento em que o Céu toca a Terra, é valido recordar esta referida teofania, isto é, manifestação de Deus no Antigo Testamento, para que hoje diante de sua real presença na Eucaristia sobre o altar, não se torne um espetáculo com estrondos, brilhos e tremedeira, mas sim, uma profunda concentração no mistério celebrado, que torna presente o santo sacrifício, mistérios da paixão, morte e ressurreição, verdadeiramente diante de nós rompendo qualquer barreira do tempo e do espaço.
Após sua trajetória, deixando um grande legado profético, Elias confia sua missão a Eliseu, também santo, Santo Eliseu, profeta, que testemunhou o momento em que Elias foi levado ao Céu num redemoinho. De acordo com a narração bíblica no 2º Livro de Reis, um carro de fogo com cavalos também de fogo, veio e separou Elias de Eliseu enquanto andavam conversando, nesse momento, Elias foi arrebatado ao Céu e Eliseu clamava: ''Meu pai, meu pai! Carros de Israel e seus cavaleiros''! Por isso o título carmelita de: ''Nosso pai, Santo Elias, profeta'', o pai da ordem do Carmelo. Eliseu tomou o manto que Elias deixou cair dos ombros, golpeou as águas e elas se abriram. O sinal serviu para que o povo visse que Eliseu seria o sucessor legítimo de Elias.
Durante todo o período da Antiga Aliança, os carmelitas aguardavam o retorno de Elias, fato que inclusive é destacado no encerramento do livro de Malaquias, o último do Antigo Testamento. Por isso muitos achavam que que João Batista era Elias, que Jesus era Elias e na cruz quando Jesus diz: ''Eli, Eli, lamá sabactâni!'' que quer dizer em aramaico: ''Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?'', muitos acreditavam que era Jesus chamando Elias, mas por fim, foi entendido pelos cristãos no pós-ressurreição, que Jesus é o novo Moisés e o novo Elias, algo já anunciado por Jesus durante a transfiguração no Monte Tabor: Naquele momento, diante de Pedro, Tiago Maior e João, ao mostrar Moisés e Elias às portas do Reino dos Céus, Jesus mostra sua face divina e confirma ser o Messias esperado que veio cumprir a lei, representada por Moisés e a profecia, representada por Elias.
Com as portas abertas dos Céus para nós após a ressurreição, hoje na glória Santo Elias intercede pela ordem do Carmelo, que se tornou uma ordem religiosa católica entendendo que o Cristianismo era o cumprimento pleno do Judaísmo, e intercede por todos nós que buscamos o Deus verdadeiro, na verdadeira fé.
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