Não chame de ''missa de sempre'' um único rito que consiste apenas num recorte histórico da Igreja

Imagem gerada pelo ChatGPT e modificada pelo autor

Texto de Raí José Maciel da Silva,
professor, escritor e editor, formado em Geografia(Licenciatura), Letras-Inglês (Licenciatura) e pós-graduado em Teologia.


    Se até ontem o único problema que parecíamos ter que lutar era o do progressismo desenfreado dentro da Igreja, hoje temos também outro tão grave quanto, porém, disfarçado de sacralidade. Não é de hoje que muitos sacerdotes e leigos lutam contra abusos litúrgicos, banalizações e excessos travestidas de inculturação, entre tantas ideologias modernizantes que tentam sufocar a liturgia e a fé como um todo. Se esse já era um problema avançando o sinal vermelho, agora temos outro que segue crescendo após continuar avançando sob o alerta amarelo, que é o ultraconservadorismo travestido de tradicionalismo.

    Uma coisa é o conservadorismo, que busca conservar a tradição, uma coisa é ser tradicional, isto é, manter viva a tradição, outra coisa é quando o tradicionalismo perde o controle e avança para o ultraconservadorismo, que é uma vertente extrema, a qual começa não só buscar manter tradições vivas, mas também a se colocar como única verdade inquestionável, onde tudo aquilo que fuja do Concílio Tridentino para trás é visto como errado por mais correto que possa ser, e qualquer questionamento vindo de Roma é tido como perseguição.

    O problema não está em conservar algumas tradições, ritos etc, porém, no não aceitar a cláusula pétrea da Igreja: ''Tudo o que tu ligares na Terra, será ligado nos Céus; tudo o que tu desligares na Terra será desligado nos Céus.'' (Mt 16,19). Essa é a primeira e maior tradição a ser conservada, a autoridade deixada pelo próprio Cristo, o Deus que se fez homem e habitou no meio de nós, que ao fundar sua Igreja, a encabeçou com o desejo da unidade e obediência a São Pedro e aos seus sucessores, os papas.

    Não se questiona uma ordem de Cristo, se obedece; não se faz comparações como crianças do pré-escolar como quando a professora chama a atenção daquele aluno desobediente, e ele ao invés de obedecer, simplesmente alega que o coleguinha também está fazendo bagunça.

    Hoje vemos inúmeras pessoas que questionam a presença de ministras extraordinárias da sagrada comunhão, coroinhas e cerimoniárias mulheres, só porque no passado a presença feminina nessas funções não era permitida. Muitos insistem no termo ''corredentora'' embora o Vaticano tenha orientado a não usar este termo para se referir a Maria, uma vez que a expressão pode gerar confusão, portanto é sempre inoportuna, inadequada, para textos da atualidade. Há ainda quem questione o Rito Romano celebrado versus populum (sacerdote de frente para o altar e para o povo) em língua vernácula, isto é, na língua de cada lugar, alegando que o Rito Romano Antigo em latim celebrado versus Deum (sacerdote de frente para o altar, porém, de costas para o povo) é a missa de sempre. Vamos então para alguns questionamentos:


1 - Como assim missa de sempre? Missa de sempre é o santo sacrifício, mistérios da paixão, morte e ressurreição de Cristo, e não um rito específico. Mesmo antes do Concílio Vaticano II, já existiam ritos diferentes em igrejas católicas orientais, como existem nos tempos modernos, ritos estes que não são o Rito Romano atual nem o antigo, e ainda assim não deixam de ser ritos devidamente válidos para a celebração da santa missa de sempre. Missa de sempre é tornar presente o memorial da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor, e cada rito tem seu sentido para a vivência desse mistério nas partes da santa missa de cada um deles, onde no ápice, a consagração da Eucaristia, as palavras usadas por Jesus e transmitidas pelos apóstolos são as mesmas, como São Paulo bem nos descreve em grego em sua 1ª Carta aos Coríntios (ICor 11,23-26). Paulo escreveu em grego, Jesus pela primeira vez falou em aramaico, os apóstolos provavelmente utilizaram o aramaico e/ou o hebraico, e posteriormente o grego e o latim, e o mistério é o mesmo nos tempos modernos quando celebrado em português, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, holandês, chinês, japonês, coreano, amárico etc. Missa de sempre é como São Justino nos primeiros séculos já descreve cada parte da missa e que hoje em todos os ritos vemos: Nos reunimos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o sacerdote nos acolhe com uma saudação utilizada pelos apóstolos, pedimos perdão a Deus (Ato penitencial), cantamos o cântico dos anjos, aquele que eles quando o Senhor nasceu no meio de nós (Hino de louvor: Glória), contemplamos a palavra de Deus e fazemos nossas preces (Liturgia da Palavra), ofertamos a Deus o fruto do nosso trabalho e para nós este sacrifício torna-se o corpo e sangue de Cristo nas espécies do pão e do vinho (Liturgia Eucarística), e por fim, somos enviados em missão com a bênção de envio (Bênção final). Missa de sempre não é um rito criado num recorte histórico da Igreja, mas o memorial perpétuo do mistério da nossa fé.


2 - Quando muitos alegam que aquilo que foi considerado correto durante anos não pode ser considerado errado agora, devemos recordar a esses nossos irmãos que há uma diferença enorme entre certo e errado em detrimento ao que é oportuno, viável, mais adequado para o momento, e o que deixa de ser oportuno, não é mais viável e já não se torna mais adequado para o presente. Dogmas de fé são imutáveis, ensinamentos de Cristo pendurarão pelos séculos do séculos, pois doutrina da fé é uma coisa, já disciplina é outra. Há regras na Igreja que nunca mudarão, pois são ensinamentos claros de Nosso Senhor, são dogmas proclamados infalivelmente pelo sumo pontífice, são doutrinas perpétuas, porém, determinadas observâncias existem a caráter disciplinar, portanto, podem sofrer alterações com o tempo. Ex.: Preceitos da Igreja que podem ser modificados, como quando antes devíamos guardar as quartas e sextas-feiras sem comer carne e atualmente apenas as sextas, o jejum eucarístico que foi estabelecido para apenas uma hora antes da comunhão, a não obrigatoriedade mais do véu para as mulheres, entre tantas outras modificações. Termos também podem ser reinterpretados e terem um sentido relido ao longo da história, entre tantas outras coisas passíveis de serem analisadas pelo magistério da Igreja, sob a autoridade máxima do papa, conforme o próprio Cristo determinou. Se fosse para seguir tudo 100% sem nenhuma modificação disciplinar, Deus que sabe de todas as coisas não teria dado aquela ordem a São Pedro. Mas agora note como esses questionamentos são seletivos: Muitos que não aceitam a participação de mulheres leigas na liturgia, não aceitam a desobrigatoriedade do uso do véu, não concordam com as mudanças nos dias e tempos para jejuns e abstinências, celebração em língua vernácula etc, pergunte a um deles se aceitam a dialogar sobre o fim do celibato sacerdotal? Ué, não são os mesmos que questionam que o Vaticano cobra mais deles, que dos erros dos outros, que tem que questionar igualmente, então que a crítica e os posicionamentos deles sejam iguais também - Se gostam de dizer que aquilo que foi certo, o que para nós não é questão de certo ou errado, mas de adequado ou inadequado, mas eles insistem em dizer que é questão de certo ou errado - Se o que alegam ter sido ''certo'' por anos na Igreja, jamais pode um dia vir a ser ''errado'', e o celibato que passou a ser uma disciplina universalizada no rito latino a partir de 1123 no Concílio de Latrão I? Se os 39 primeiros papas da Igreja foram casados, então agora seria errado a Igreja exigir o celibato? Opa, agora a conversa mudou de toada né?


    Pois bem, respeitamos e obedecemos o que a Santa Mãe Igreja nos diz em cada época, pois o princípio do seguimento da Igreja de Cristo é a obediência e a unidade. Quando Cristo fundou a Igreja, ele nem pediu pra inventar moda, tampouco mandou manter tradições vivas a qualquer custo questionando até a autoridade máxima da Igreja, mas sim, em plena unidade, em comum união (comunhão), obedecer ao escolhido por Ele e não pelos homens, para a condução da sua Igreja, que é dEle (de Cristo) e não nossa. O papa mesmo com seus defeitos humanos como todos nós temos, no que tange à fé é instrumento nas mãos de Deus e no que tange à doutrina não falha, pois é o Espírito Santo que o elegeu e age nele. Não é uma obediência cega a um homem, mas um desejo do próprio Cristo, e é somente a essa obediência a Nosso Senhor que estaremos protegidos das investidas das forças do inferno. Eis a promessa de Cristo, eis a sua Igreja.



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