O Livro do Levítico: Às vezes incompreendido, mas que sob a luz do Novo Testamento, faz todo o sentido.
Introdução
É comum vermos uma certa incompreensão da parte de muitos no que tange à leitura do livro do Levítico, uma vez que trata-se de um livro que mescla profundamente a cultura e a época em que o povo vivia, tal qual o momento que atravessavam, com as leis de Deus. O mesmo ocorre com todos os demais livros das Sagradas Escrituras, porém, como o referido livro tem como objetivo falar da ''Lei'' e mescla leis divinas à realidade dos homens, somando-se a normas para aquele referido contexto; se não o lemos com uma interpretação apurada, nos perdemos sem saber o que fazer e o que não fazer, o que pode e o que não pode, o que é para nós hoje e o que foi para aquele tempo.
Numa leitura mais simplista, às vezes superficial para apenas introduzir estudos bíblicos e teológicos, muitos apresentam o terceiro livro das Sagradas Escrituras como um suposto manual de instruções ou caderno de receitas, onde normas e rituais são explicados passo a passo; porém, não é só algo que fala de uma história passada, mas nos aponta para a atualidade de uma maneira impressionante.
- Mas como irei interpretar assim? É difícil! Como enxergar isso que está para além do que meus olhos conseguem ver?
Calma, a Santa Mãe Igreja já fez isto para você; agora é hora apenas de se deliciar com as explanações.
1ª parte: Ritual dos Sacrifícios
O livro pode parecer começar apenas como uma sequência de rituais de sacrifícios de animais e oblações vegetais e de cereais; uma série de ritos para a paz e para a expiação dos pecados, seja do sacerdote ou do povo; porém, algo mais profundo já aparece desde o início do livro, já logo no capítulo primeiro, nos apontando para o cordeiro imolado, Nosso Senhor Jesus Cristo, no sacramento da comunhão.
"1O Senhor chamou Moisés e, da Tenda do Encontro, lhe falou: 2''Dize aos israelitas: Se alguém quiser apresentar ao Senhor uma oferta dentre os animais domésticos, poderá apresentar uma oferta do gado ou do rebanho.
10Se a sua oferta para o holocausto for do rebanho, das ovelhas ou das cabras, o oferente apresentará um animal macho, sem defeito. 11Imolará o animal ao lado norte do altar, diante do Senhor, e os filhos de Aarão, os sacerdotes, aspergirão o sangue em redor sobre o altar.'' (Lv 1,1-2.10-11)
Quando já no capítulo 1, vemos o Senhor chamar Moisés e ordenar que ele anuncie ao povo como apresentar o sacrifício, esse ato só terá sentido quando olharmos este sacrifício do Antigo Testamento, como primícias do único e eterno sacrifício de louvor, que foi o Santo Sacrifício de Cristo na Cruz.
Cristo é o cordeiro, já prenunciado naquele sacrificado por Abraão no livro do Gênesis. Nosso pai da fé, quando o anjo anunciou que sua fé já havia sido provada, que não era para sacrificar seu filho Isaque, mas sim, o carneiro (Gn 22,1-19). E é no mesmo monte que Noé sepultou nosso primeiro pai Adão, que Abraão ofereceu este primeiro sacrifício de oblação. Esse sacrifício foi aceito por Deus, como outrora aceitou a oferta do justo Abel (Gn 4,4).
Na plenitude dos tempos, o próprio Deus vivo, Nosso Senhor Jesus Cristo, é crucificado neste mesmo monte. Nosso Senhor foi pregado na cruz no Calvário, o local da caveira, em referência aos restos mortais de nosso primeiro pai, Adão. Ele é o novo Adão, o novo Moisés, que já não mais nos tira da escravidão do Egito e leva para a terra prometida, a Jerusalém terrestre, mas nos liberta da escravidão do pecado e da morte e nos abre as portas para a vida, para a Jerusalém Celeste, o Céu. Ele é o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo (Jo 1,29).
No trecho do livro do Levítico previamente mencionado, o ofertar um animal sem defeito, implica tanto em ofertarmos o melhor para Deus e não apenas o resto, como principalmente prenuncia que aquEle sem nenhum pecado, sem nenhuma mancha, sem nenhum defeito, iria suportar o peso de nossas faltas para o perdão de nossos pecados.
Hoje quando o sacerdote consagra a eucaristia nas espécies do pão e do vinho, que se tornam para nós o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, o ato de estender as mãos na consagração, é o mesmo ato de expiação dos pecados da assembleia, como quando os antigos sacerdotes da primeira aliança, isto é, do Antigo Testamento, transferiam os pecados do povo para o animal imolado.
Trata-se portanto, de um trecho que lido por si só, parece meramente um manual, uma receita, um texto descontextualizado com relação à nossa realidade, mas sob a luz do Novo Testamento, vemos a claridade por trás daquilo que talvez antes não entendíamos e até questionávamos o porquê de pedaços assim, supostamente meramente explicando algo do passado, nas Sagradas Escrituras. É porque não é algo que se perdeu no passado, mas que prenunciava o presente e que se faz memória constantemente.
E falando em fazer memória, em toda celebração da Santa Missa, fazemos memória à paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor. Um dos momentos entre a morte e a ressurreição de Jesus, é o momento em que um dos soldados transpassa o lado de Jesus com a lança e jorra sangue e água. Pela tradição, sabemos que este soldado é São Longuinho, que sofria de uma cegueira e foi curado quando gotículas do sangue e da água que jorraram do Sacratíssimo Coração de Jesus, recaíram sobre seus olhos, curando-o não apenas da cegueira física, mas da cegueira da alma, conduzindo-o à conversão.
Na passagem inicial do livro do Levítico e em outros momentos ao longo do livro, veremos a questão da aspersão: A aspersão do sangue do animal feito vítima imolada no Antigo Testamento, e a agora a aspersão do sangue e da água que jorram do lado aberto do Senhor nos olhos de Longuinho. Hoje, em determinadas celebrações da Santa Missa, a aspersão da água benta pode ocorrer no lugar do Ato Penitencial, como também forma de purificação para os pecados.
“31Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. 32Os soldados foram e quebraram as pernas de um e, depois, do outro que foram crucificados com Jesus. 33Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; 34mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. 35Aquele que viu, dá testemunho, e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. 36Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: "Não quebrarão nenhum dos seus ossos". 37E outra Escritura ainda diz: "Olharão para aquele que transpassaram".” (Jo 19,31-37)
Obs.: Antes de continuarmos, vale lembrar que ''Tenda do Encontro'' era o local onde eles se reuniam para a oração e para rituais antes da construção do Templo, pois estavam ainda no contexto de peregrinação, desde que Deus suscitou Moisés para caminhar com o povo saindo das terras egípcias, até a chegada à terra prometida.
2ª parte: Tipo de pecado / Pecado e culpa
Vemos a partir do capítulo 4, uma separação entre faltas cometidas pelo sacerdote e pelo povo, pecados voluntários e involuntários, assim como trechos que falam de contaminação e purificação.
Numa leitura meramente histórica, ficaremos restritos a dizer que são coisas daquela época, a forma como o povo acreditava no que via, a forma como interpretavam as revelações divinas, a falta de conhecimento científico para analisar doenças e saber o que é uma lepra, por exemplo. Mas quando analisamos sob a luz do Novo Testamento, quando olhamos para os mandamentos da Igreja e para os sacramentos, vemos que já desde o Antigo Testamento havia uma clara separação entre o que hoje chamamos de pecado venial, mais leve, e pecado mortal, mais grave; vemos que há momentos distintos de pedir perdão, e a validade para cada situação.
Hoje professamos que pecados mais leves são perdoados no ato penitencial da Santa Missa, onde somos purificados até que chegue o dia de nossa próxima confissão, quando devemos também confessá-los; já os pecados mortais, necessitam obrigatoriamente do sacramento da confissão, onde sem ele, não podemos receber o corpo e o sangue de Cristo.
Na Santa Missa, vemos que os fiéis pedem perdão no ato penitencial juntamente com o sacerdote, porém, há momentos específicos dos fiéis como quando o povo reza:
- ''Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tente piedade de nós. Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós. Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz.''
Ao mesmo tempo, o sacerdote reza em silêncio: - ''Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, que, cumprindo a vontade do Pai e agindo com o Espírito Santo, pela vossa morte destes vida ao mundo, livrai-me por este vosso santíssimo Corpo e Sangue dos meus pecados e de todo mal; dai-me cumprir sempre a vossa vontade e jamais separar-me de vós.''
Ou:
- ''Senhor Jesus Cristo, vosso Corpo e vosso Sangue, que vou receber, não se tornem causa de juízo e condenação; mas, por vossa bondade, sejam proteção e remédio para minha vida''.
O sacerdote quando lava as mãos durante a apresentação das oferendas, pede perdão a Deus dizendo:
- ''Lavai-me, Senhor, de minhas faltas e purificai-me do meu pecado.''
Juntos do sacerdote, o povo antes de comungar diz:
- ''Senhor, eu não sou digno(a) de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo(a).''
Vemos ainda a partir do capítulo 5, uma clara separação entre rito de sacrifício pelo pecado e rito de sacrifício pela culpa, algo que sem dúvidas já nos aponta para o pecado e para a culpa temporal, que hoje somos dos pecados absolvidos pelo sacramento da confissão, e da culpa temporal quando lucramos indulgências plenárias.
O Livro do Levítico já nos aponta para algo que Nosso Senhor plenamente nos deixará claro em sua vida pública e no pós-ressurreição:
''21Jesus disse, de novo: ''A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, eu também vos envio''. 22Dito isso, soprou sobre eles e falou: ''Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, lhes serão perdoados; a quem os retiverdes, lhe serão retidos''. (Jo 20,21-23) - Sacramento da Confissão/Reconciliação/Penitência
''23Se, portanto, ao levares a tua oferenda ao altar, te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, 24deixa a tua oferenda lá diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão e, então, volta para apresentar a tua oferenda. 25Entra em acordo com teu adversário enquanto estás com ele a caminho. Senão ele te entregará ao juiz, o juiz ao guarda, e tu serás lançado na prisão. 26Em verdade, te digo: dali não sairás enquanto não pagares o último centavo.'' (Mt 5,23-26) - Lucra em vida indulgências plenárias ou purificar-se no Purgatório.
Muitos sem entender, pensam que quando falamos do Purgatório, estamos falando em se converter após a morte; mas não é isso, reconhecemos que a decisão tem que ser tomada aqui. O Purgatório é para a purificação da culpa temporal dos pecados já perdoados. O termo não aparece nas Sagradas Escrituras, mas a ideia sim, purgar é purificar, e a purificação se dá desde o Antigo Testamento, como claramente vemos nas instruções do livro do Levítico, o qual estamos analisando, se dá por meio do fogo, por isso o termo holocausto, onde a vítima, na época o cordeiro, o bezerro ou par de pombinhas ou rolas, era queimada. No Purgatório, não há chamas como as do Inferno que queimam para sempre, mas chamas que lapidam, que podam aquilo que devemos deixar para trás para alcançar na perfeição, o Reino de Deus e de lá não saímos, enquanto não terminarmos de nos purificar para o Céu.
Obs.: Vale lembrar que nem todo termo da nossa fé, precisa aparecer logo de início. O termo cristãos não aparece nos evangelhos, apenas nos Atos dos Apóstolos (At 11,19-26), embora desde o início, os apóstolos e discípulos já eram cristãos, isto é, como que ''outros cristos'', pois nossa fé sempre consistiu na imitação dos passos do Messias esperado - A ideia já existia, só não a palavra. Palavras surgem para nomear conceitos já existentes, assim como cada palavra de cada idioma. Embora não haja o termo ''Purgatório'' na Bíblia, mas sua ideia é clara, portanto, é uma palavra que veio para nomear esse conceito de estágio de purificação da culpa temporal (consequência) dos pecados já arrependidos pelo penitente e perdoados por Deus. O mesmo ocorreu com o termo papa, que surgiu para nomear o administrador da Igreja, sucessor de São Pedro, dando sequência à missão que o próprio Senhor confiou primeiramente ao referido apóstolo (Mt 16,13-19). Também, o termo ''católica'', surge no ano 107 da era cristã, com Santo Inácio de Antioquia, discípulo do apóstolo e evangelista São João, para falar da universalidade que a Igreja sempre teve, sendo a mesma em todo lugar, na mesma unidade em todo o mundo e para todos os povos (Carta de Santo Inácio à Comunidade de Esmirna - Capítulo 3, versículo 4: ''Onde quer que o bispo se apresente, permiti que o povo também esteja presente. Pois assim como onde Jesus Cristo está, a Igreja Católica também está.''). Entre tantos exemplos que podemos citar, encerro esse pensamento com a expressão ''Santíssima Trindade'', que não aparece na Bíblia, mas sabemos que Deus é Pai, é Filho e é Espírito Santo, como tantas vezes isso fica claro para nós nas Sagradas Escrituras, sobretudo nos evangelhos, nas próprias palavras de Nosso Senhor Jesus.
3ª parte : Ritual dos Ministros
A partir do capítulo 8, vemos o ritual dos ministros. Quem já viu ou sabe como funciona uma ordenação sacerdotal e uma ordenação episcopal, enxergaria perfeitamente o rito o qual Moisés utilizou para a unção de Aarão e os filhos de Aarão como prefácio das ordenações dos ministros sucessores dos apóstolos:
''1O Senhor falou a Moisés: 2''Toma contigo Aarão e seus filhos, as vestes, o óleo da unção, o bezerro para a oferta pelo pecado, os dois carneiros, o cesto dos pães sem fermento''
7Ele vestiu Aarão com a túnica de linho, cingiu-lhe o cinto, revestiu-o com o manto, colocou-lhe o efod e cingiu-o com o cinto ornado do efod, prendendo-o. 8Pôs-lhe o peitoral, no qual inseriu o Urim e o Tumim. 9Cobriu-lhe a cabeça com a tiara, na qual fixou, na frente, a lâmina de ouro, o diadema sagrado - conforme o Senhor havia ordenado a Moisés.
10Depois, Moisés tomou um pouco do óleo da unção, ungiu a Morada, consagrando-a com tudo que nela havia. 11Aspergiu com o óleo sete vezes o altar e o ungiu, com todos os seus utensílios, bem como a bacia e seu suporte, consagrando-os. 12Derramou o óleo da unção sobre a cabeça de Aarão e o ungiu, consagrando-o. 13Depois, Moisés mandou aproximarem-se os filhos de Aarão, vestiu-lhes as túnicas de linho, cingiu-lhes os cintos e lhes pôs os turbantes - conforme o Senhor havia ordenado a Moisés.'' (Lv 8,1-2.7-13)
Apenas Aarão é ungido na cabeça, como hoje os bispos nas ordenações episcopais, enquanto que seus filhos participam apenas dos demais ritos, como os padres que hoje são ungidos apenas nas mãos e tem um rito similar ao do bispo, porém, o bispo recebe paramentos e acessórios a mais, como Aarão recebeu vestimentas a mais que seus filhos. Desde aquele tempo, podemos ver uma hierarquia e especificações em cada rito.
Foi possível também observar a consagração do local e do altar, tal qual hoje, com o mesmo santo óleo do crisma, que os padres são ungidos nas mãos, os bispos na cabeça e todo fiel é ungido na fronte durante o batismo e durante a confirmação, também são ungidos os altares e igrejas durante suas respectivas dedicações.
Alguns termos lhe lembram alguma coisa, como a tiara papal por exemplo? Também na continuação vemos algo que nos recorda o rito de quando um padre ou bispo é empossado, recebendo objetos que remontam à função frente ao povo de Deus, como outrora Aarão e seus filhos receberam as oferendas em suas mãos: ''Pôs tudo isso nas mãos de Aarão e nas mãos de seus filhos, e Aarão o apresentou em oferta movida diante do Senhor.'' (Lv 8,27)
4ª parte: O puro e o impuro / Tradições
A partir do capítulo 11, vemos a lei do puro e do impuro, que é uma parte do livro que sem dúvidas, gera muitas incompreensões para o leitor dos dias de hoje, onde o fiel não sabe o que vale para nós atualmente e o que valeu para aquele tempo.
Posso fazer a barba? Posso comer carne de porco? Entre tantos questionamentos são comuns indagações do leitor dos tempos contemporâneos.
Foi com a autoridade recebida de Deus, que Moisés e os sacerdotes do Antigo Testamento, isto é, da Antiga Aliança, definiram diversas normas. É com essa autoridade que eles podiam definir o correto e o incorreto para o povo a depender de cada contexto que atravessavam, tanto que Deus deu a Moisés as tábuas da Lei com os 10 mandamentos, mas confiou a ele a missão de conduzir o povo na caminhada no deserto e isso envolvia elaborar normas. Vejamos um exemplo:
Naquele tempo, quando o casamento não era um sacramento, Moisés autorizou a concessão da certidão de divórcio pela dureza do coração daqueles homens, que por vezes matavam as esposas para se casarem novamente. Nosso Senhor, no Novo Testamento, quando eleva o casamento a sacramento, o sacramento do matrimônio, reforça que o que Deus uniu, que o homem não separe (Mt 19,3-9; Mc 10,1-12); e hoje com a autoridade recebida de Nosso Senhor, que os sucessores dos apóstolos definem se o sacramento do matrimônio de fato ocorreu ou não. Não temos o divórcio, isto é, a separação do que Deus uniu verdadeiramente, mas a nulidade matrimonial, que não é uma contradição ao que Jesus disse, mas uma confirmação. O que realmente é um matrimônio válido, que Deus realmente uniu conhecendo aqueles corações que desejavam verdadeiramente se comprometerem com o sacramento, é impossível que alguém dê uma certidão de divórcio perante à Igreja, porém, em casos em que o compromisso não existiu, e Deus mais do que todos sabia que não havia o comprometimento, Ele não uniu, portanto, não é uma separação, é uma constatação de que a união nunca de fato ocorreu.
Quando no Antigo Testamento foram criadas as normas para a caminhada, elas se aplicaram para o contexto do Êxodo, aquela saída da terra do Egito rumo à terra prometida. Quando eles chegam às portas da Terra Santa, há que se reformular a lei, tanto que é isso que significa ''Deuteronômio'', o nome do último livro do Pentateuco, isto é, dos 5 primeiros livros da Bíblia: ''Segunda lei''. Deuteronômio é uma nova lei, já não para a realidade da caminhada, mas para a realidade da vivência na terra prometida agora pelo povo alcançada, que será partilhada por Josué e que posteriormente, já no tempo de Salomão, será construído o templo, onde não serão mais as regras da Tenda do Encontro, que era armada no deserto durante a longa migração, mas do Templo fixamente construído.
Com que autoridade é apresentada a nova lei? A mesma recebida de Deus por aqueles por Ele suscitados para conduzir seu povo. Tanto que é pela mesma autoridade que em Cristo, serão feitas novas todas as coisas, a nova e eterna aliança em seu corpo e seu sangue. Quando Jesus diz a Pedro: ''Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra, será ligado nos céus, e tudo que desligares na terra, será desligado nos céus.'' (Mt 16,19), Jesus sabia claramente ao fundar sua Igreja e confiá-la aos cuidados de Pedro, que ao longo do tempo, ela teria que seguir analisando os sinais dos tempos e adaptando aquilo que fosse necessário, lógico, sem perder sua essência, que é imutável, mas dentro da realidade de cada época. E como a Igreja faz isso? Com a autoridade do sucessor de Pedro que vem do próprio Cristo.
No Levítico vemos a ideia de puro e impuro, que depois será definitivamente explanada por Jesus:
11''Não é aquilo que entra pela boca que torna alguém impuro, mas o que sai da boca''. 17Não compreendeis que tudo o que entra pela boca vai ao ventre e é expelido para a fossa? 18O que sai da boca, porém, vem do coração, e isso é que torna alguém impuro. 19É do coração que saem as más intenções: homicídios, adultérios, fornicações, roubos, faltos testemunhos, blasfêmias. 20Isso é que torna alguém impuro. Comer sem lavar as mãos, não torna ninguém impuro''. (Mt 15,11.17-20)
Muitas vezes eles se preocupavam mais com as normas criadas como forma de organização e da cultura da época que com os próprios mandamentos da lei de Deus:
''1Os fariseus e alguns mestres da Lei vieram de Jerusalém e se reuniram em torno de Jesus. 2Eles viam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as terem lavado. 3Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. 4Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre. 5Os fariseus e os mestres da Lei perguntaram então a Jesus: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” 6Jesus respondeu: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. 7De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos’. 8Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. 9E dizia-lhes: “Vós sabeis muito bem como anular o mandamento de Deus, a fim de guardar as vossas tradições. 10Com efeito, Moisés ordenou: ‘Honra teu pai e tua mãe’. E ainda: ‘Quem amaldiçoa o pai ou a mãe deve morrer’. 11Mas vós ensinais que é lícito alguém dizer a seu pai e à sua mãe: ‘O sustento que vós poderíeis receber de mim é Corban, isto é, Consagrado a Deus’. 12E essa pessoa fica dispensada de ajudar seu pai ou sua mãe. 13Assim vós esvaziais a Palavra de Deus com a tradição que vós transmitis. E vós fazeis muitas outras coisas como estas”. (Mc 7,1-13)
Muitas vezes, um mandamento da lei de Deus era deixado de lado, como no caso anterior, o 4º Mandamento: ''Honrar pai e mãe''; Para focar nas normas culturais seguindo uma regra pela regra sem sentido. No exemplo acima, Jesus questionava aqueles que diziam que tinham consagrado suas posses ao Templo, ou seja, a Deus, e por isso não poderia se dispor delas para com o dinheiro arrecadado da venda, ajudar os pais necessitados, fazendo assim que a regra da consagração de propriedades ao templo passasse por cima do mandamento da lei de Deus, e Jesus ainda arremata dizendo que tantas outras coisas como essa faziam. Isso nos ajuda a entender o porquê o cuidado em separar o que é lei de Deus, do que é lei dos homens no referido livro Bíblico que estamos estudando.
Também já nos Atos dos Apóstolos, após a Ascensão do Senhor e a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, quando a missão apostólica estava a todo vapor, vemos Deus confirmando de fato o fim de normativas que valiam no passado para determinado contexto e o foco apenas na revelação de Deus para todos os povos em todos os tempos:
''9No dia seguinte, enquanto os homens estavam a caminho e se aproximavam da cidade, ao meio-dia, Pedro subiu ao terraço para orar. 10Sentiu fome e quis comer. Mas, enquanto preparavam a comida, entrou em êxtase. 11Viu o céu aberto e algo como um grande pano ser baixado pelas quatro pontas para a terra. 12Dentro do pano havia toda espécie de quadrúpedes e répteis da terra e de aves do céu. 13E uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come! 14Mas Pedro respondeu: De modo algum, Senhor! Nunca comi coisa profana ou impura. 15A voz lhe falou pela segunda vez: Não chames de impuro o que Deus tornou puro. 16Isso se repetiu por três vezes. Depois, o objeto foi imediatamente recolhido ao céu.
(At 10,9-16)
Vimos que já no próprio Antigo Testamento, do Êxodo ao Deuteronômio, houve uma mudança nas normativas sem perder a essência das leis de Deus, assim como a verdadeira tradição que devemos hoje seguir, só será formulada junto das leis de Deus pelos apóstolos de Jesus e seus sucessores para a nova e eterna aliança.
Muitos neste contexto às vezes ainda questionam:
- Ah, mas no Deuteronômio, os mandamentos foram mantidos à risca conforme no livro do Êxodo.
Sim, muitas coisas foram mantidas e outras adaptadas na nova lei sem perder a essência divina original, e nos tempos de Cristo, ocorre mesmo, muita coisa foi concluída nEle e agora vivemos a partir dEle; tanto que o próprio Senhor ao citar os mandamentos, não fica preso a certas ideias como à ideia de imagens, pois isso fica entendido que já é algo associado ao primeiro mandamento e não como um segundo mandamento. O não fazer imagens naquele contexto tratava-se de uma proibição em adorar ídolos pagãos, como era algo que tanto viam na cultura egípcia durante a escravidão no Egito e posteriormente será um grande problema no exílio na Babilônia, por isso profetas como Isaías e Jeremias tanto falarão contra imagens de ídolos, o que nada tem a ver com as imagens que temos hoje dos santos, que não são vistos como outros deuses, mas pessoas que nos apontam para Deus, que rezam por nós no Céu a Deus:
''16Alguém aproximou-se de Jesus e disse: "Mestre, o que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?" 17Jesus respondeu: "Por que tu me perguntas sobre o que é bom? Um só é o Bom. Se tu queres entrar na vida, observa os mandamentos". 18O homem perguntou: "Quais mandamentos?" Jesus respondeu: "Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, 19honra teu pai e tua mãe, e ama teu próximo como a ti mesmo".'' (Mt 19,16-19)
''36“Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” 37Jesus respondeu: “‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!’ 38Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. 40Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.'' (Mt 22,36-40)
Jesus ignora completamente algo que não é a essência dos mandamentos, focando no essencial, que é amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo. É nisso que consistem os 10 mandamentos, não pecar contra Deus, nem contra o próximo e nem contra si mesmo. Tanto que em diversos outros momentos na Bíblia veremos Deus mandando fazer imagens, mas em contextos que não serão adoradas como ídolos, como os querubins postos sobre a arca da aliança (Ex 25,17-22) e a serpente que Moisés constrói a pedido de Deus (Nm 21,4b-9) e depois o próprio Cristo usa para fazer uma analogia com ele mesmo dizendo que assim como a serpente foi elevada no deserto para a cura das feridas, o filho do homem também deveria ser elevado na cruz para o perdão dos pecados (Jo 3,14-15) - Contextos onde todos sabiam que não eram os querubins nem a serpente deuses, mas sinais visíveis que ajudavam a ver a graça de Deus ocorrendo, a presença de Deus no meio de nós, como hoje vemos a presença e a graça de Deus na vida dos santos, que além de darem-nos exemplos de vida, hoje rezam a Deus por nós no Céu (Ap 5,8).
Quanto ao sábado, novamente voltemos o nosso olhar ao sentido e não ao termo pelo termo. Vemos os apóstolos se reunindo no primeiro dia da semana para a fração do pão (At 20,7), a visão beatífica do reino dos céus, narrada no Apocalipse por São João se deu no primeiro dia da semana, o Dies Domini - Dia do Senhor - Domingo (Ap 1,10). O sábado era o último dia da antiga criação, isto é, da criação deste mundo, quando Deus abençoou a criação. O domingo é o dia que o Senhor ressuscitou, portanto, o primeiro dia de uma nova semana, indica uma nova criação, somos povo do Céu, da nova e eterna aliança, a antiga já se cumpriu: ''Assim, ao falar em ''nova'' aliança, declarou antiga a primeira. Ora, o que se torna antigo e envelhece está prestes a desaparecer.'' (Hb 8,13)
Note que a essência dos mandamentos não foi perdida, pelo contrário, foi ressignificada em Cristo que faz nova todas as coisas: Nossa páscoa não é mais a saída da escravidão do Egito rumo à terra prometida, mas a saída da escravidão do pecado e da morte para a vida; nosso Pentecostes não é mais a colheita dos frutos da terra, mas dos frutos do Espírito Santo; não somos mais circuncidados, ou seja, não somos mais marcados com a marca do povo judeu, povo da primeira aliança, mas sim, batizados, selo da nova e eterna aliança, e não num batismo de conversão, isto é, não mais no batismo de João, mas no batismo de Jesus, na ação do Espírito Santo: Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Por isso, não guardamos mais o sábado, mas o domingo, o dia daquEle que cumpriu o Antigo Testamento, e agora este deu ao Novo o seu lugar. Por essa razão, que só podemos entender o Antigo Testamento, sob a luz do Novo, como primícias do que seria concretizado em Nosso Senhor Jesus Cristo.
E voltando à questão das tradições, vimos que as que valem para nós hoje, são aquelas que a Igreja ensina, algumas mantidas do antigo como o revestir-se de cinzas como penitência (Quarta-feira de Cinzas - Início do Tempo da Quaresma) e outras como os dias de jejum e abstinência que foram ressignificados em Cristo:
''14Então aproximaram-se de Jesus os discípulos de João e perguntaram: ''Por que nós e os fariseus jejuamos, e os teus discípulos não jejuam?'' 15Jesus lhes respondeu: ''Acaso os convidados do casamento podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão, porém, em que o noivo lhes será tirado. Então jejuarão''.'' (Mt 19,14-15)
Quando hoje a Igreja nos apresenta a tradição de nos abstermos ne carne nas sextas-feiras e de não jejuar nos domingos, mesmo domingos da quaresma, não é uma tradição tirada detrás da orelha, mas confirmando o que Nosso Senhor transmitiu a seus apóstolos e discípulos. Na sexta-feira que Nosso Senhor nos foi tirado (Paixão de Cristo) e no Domingo Ele ressuscitou - Dia do Senhor (Páscoa). As sextas são nossa paixão semanal e os domingos nossa páscoa semana.
Jesus não veio para abolir a lei mas dar pleno cumprimento (Mt 5,17), por isso guardamos os mandamentos dentro da ótica de Cristo, como guardando o domingo ao invés do sábado, mas sem deixar de guardar o dia do Senhor. Nos revestirmos de cinzas no início do tempo penitencial da Quaresma, rezamos pelos mortos (2Mc 12,44-45 - 2Tm 1,16-18), separamos pecado venial de mortal, perdão de pecados e indulgências plenárias para culpa temporal etc.
Ainda hoje, temos a análise dos sacerdotes de Deus, que nos instruem ao que é para cada tempo histórico, como outrora não comiam carne de porco, e realmente era algo perigoso para a saúde naquela época, mas hoje não é mais, e atualmente vemos a Igreja colocar como facultativo o uso do véu pelas mulheres, porque já não há mais o risco das mulheres serem mal vistas por isso, como ocorria nos tempos de Paulo quando o apostolo havia dito ser obrigatório. Seguimos guardando o dia do Senhor, mas não no último dia desta criação, mas no primeiro de uma nova e eterna, expiamos nossos pecados, não em animais, mas no sangue daquEle que é Perfeito e nos chama à perfeição.
5ª Parte: A Lei da Santidade
É no livro do Levítico que vemos por duas vezes o convite a sermos santos, como o Senhor é santo. Mais tarde, Nosso Senhor vai bem definir o que é a santidade, o que é ser santo de Deus, dizendo para sermos perfeitos como o Senhor é perfeito:
''44aPorque eu sou o Senhor, vosso Deus. Santificai-vos e sede santos, porque eu sou santo. 45bSede, pois santos, porque eu sou santo''. (Lv 11,44a-45b)
''Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo.''
(Lv 19,2b)
''Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.''
(Mt 5,48)
Ao final, ou seja do capítulo 17 ao 26º e penúltimo do livro do Levítico, vemos a respeito da Lei da Santidade, que é para isso que o Senhor nos chama desde a criação. Mesmo que por vezes não correspondamos a esse chamado, Ele nunca desiste de nós, nos mostrando qual o caminho a tomar para nos religar com aquele que nos desligamos, por isso Deus funda a religião, que é a religação com Ele - Primeiro o Judaísmo, que esperava a vinda do Messias, e por fim o Cristianismo, que é nada mais, nada menos, que a conclusão plena do Judaísmo, onde vivemos plenamente na Igreja que sempre existiu no Céu, que é o corpo místico de Nosso Senhor, mas que precisou ser fundada no tempo e no espaço, para participarmos aqui na Terra, daquilo viveremos em plenitude na esfera celeste.
Também nesta reta final, vemos o ano jubilar, o ano da misericórdia, do perdão das dívidas, que hoje ricamente a Igreja continua mantendo presente, não mais a cada 50 anos, mas a cada 25, além ainda dos anos extraordinários. Nos tempos atuais, são anos que podemos oferecer orações pelas intenções do santo padre, o papa para a Igreja a nível universal, e ao visitar lugares santos, receber as indulgências plenárias dos pecados perdoados.
Conclusão
O último capítulo, o 27º, traz-nos um apêndice falando das ofertas votivas e do dízimo, algo que não é o centro de nossa fé: O dinheiro e os bens materiais; porém, são necessários para a manutenção da vida da Igreja em suas despesas. Mas essa oferta só faz sentido se for de coração, partindo do entendimento de tudo o que antes foi tratado e entendido. Não adianta fazer uma doação para a Igreja uma vez por ano numa festa e depois passar o resto do ano longe dela, e não só me refiro a quem fica longe do templo físico, mas quem fica longe da vivência das normas e mandamentos que Deus nos comunica pelos homens que hoje ele segue suscitando como sucessores dos apóstolos. Não são regras como que muros de contenção ou grades de prisão, mas uma cerca de proteção.
Também o termo ''votivo'' serve para lembrarmo-nos que somadas à fé, temos devoções, celebrações votivas da santa missa, e outras coisas que embora não sejam preceito obrigatório à nossa fé, somam-se grandemente ao essencial e necessário do que Deus espera de nós.
Junto dos santos que nos precederam na fé, devotamente a eles recorramos, para também sermos santos e santas de Deus e viver essa santidade que já desde o início da humanidade somos chamados, basta que saibamos olhar com o olhar da fé, deixar cair as escamas como as que estavam nos olhos de Saulo (At 9,1-22), e agora como Paulo, sermos missionários do Senhor, levando não a interpretação particular que nos deixa na confusão e não nos permite interpretar textos belíssimos como deste livro do Levítico, mas a que possamos levar a interpretação verdadeira, aquela que vem da Igreja de Cristo e que foi transmitida pelos apóstolos. Que como São Paulo nos ensinou nos ensinou, possamos dizer: ''De fato, eu recebi do Senhor, o que também vos transmiti...'' (1Cor 11,23)
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