O apreço pelo conhecimento numa sociedade imediatista e tecnicista!


Texto de Raí José Maciel da Silva,
professor, escritor e editor formado em Geografia-Licenciatura, Letras-Inglês
e pós-graduado em Teologia.

    Como profissional das áreas de humanas e linguagens, venho apresentar minha reflexão a respeito de como muitos brasileiros têm lidado com a educação neste século:

Introdução

    Não é nenhuma novidade para quem vive no século XXI, que lidamos com o constante imediatismo, sobretudo das novas gerações, e também nosso, que aos poucos fomos nos acostumando com as novidades tecnológicas que vieram para facilitar a nossa vida, mas por vezes nos deixaram mal acostumados. Mesmo com ainda 30 anos de idade, tive minha infância e início da adolescência sem celular e sem computador, tendo apenas acessado a internet pela primeira vez aos 12 anos de idade, ainda internet discada (pela linha telefônica), mas possuindo acesso ilimitado somente a partir de por volta de 14 e 15 anos (via rádio e agora por fibra ótica), além de ter internet no celular somente já com 18 anos, pois só nessa idade que tive celular com todos os recursos que conhecemos hoje, embora tenha tido contato com celulares mais velhos desde os 5 anos de idade quando morei em Brasília - DF (celulares mais rústicos apenas para ligações e joguinho da cobrinha), mas ao voltar para Cisneiros, distrito de Palma - MG, a realidade ainda era do orelhão. Tudo isso proporciona à geração chamada de millenials, a qual pertence São Carlo Acutis, ter vivenciado esse período de transição entre o mundo analógico e o mundo digital justamente na transição da infância para a fase adulta, isto é, no período da adolescência.
    Por termos aprendido a esperar o dia de amanhã para assistir o próximo episódio de um desenho animado, aprendemos a refletir mais cada coisa que vemos, tal qual facilita a memorização da mesma, assim como moldar pensamentos a longo prazo com visões mais profundas e não meramente opiniões com base em manchetes sensacionalistas amplamente divulgadas pela grande mídia.
    Tudo isso influenciou a forma como vivemos e sobretudo como aprendemos. Vejamos:

No meio digital

    Hoje em dia, qualquer pessoa quer opinar sobre qualquer coisa, mesmo sem conhecimento prévio nenhum sobre o tema e sem o interesse de se aprofundar no estudo do mesmo. Muitas pessoas analisam o cenário econômico, ideológico e religioso que vivem, apenas naquela visão limitada daquilo que segundo elas é: ''Aquilo que eu vejo!'', e não daquilo que é a realidade. Muitas pessoas criticam o governo estadual por uma incompetência de um serviço municipal e elogiam a presidência da república por um programa estadual que vai bem. E isso se dá em vários contextos, onde vários internautas se tornam influencers, não para falarem daquilo que têm formação e/ou vasta experiência, mas para opinar como entusiastas de temas profundos que não se restringem a uma mera opinião.
    Antes de acreditar em tudo o que lê ou ouve; pesquise, reflita, para depois tirar conclusões. Antes de formar uma opinião sobre algo, lembre-se daquela placa de trânsito, a Cruz de Santo André, utilizada em cruzamentos de linhas férreas, com a célebre frase que às vezes a acompanha: ''Pare, olhe, escute''. Às vezes temos que parar, olhar, escutar, para em seguida pesquisar, refletir e opinar.

Nas escolas

    O erro já começa em casa quando os pais muitas vezes ausentes, ou mesmo quando presentes, exigem mais notas que conhecimento. Posso dar meu testemunho pessoal: Muitos me chamaram ou chamam de nerd, CDF, outros até chutam superdotação, pelo conhecimento que tenho sobre vários temas e pela capacidade de retenção de conhecimento, não meramente de forma decorada, mas de forma precisa; porém, mesmo com essas brincadeiras ou elogios, nem sempre tirei a maior nota, embora sim, já tirei notas muito altas, inclusive em algumas vezes fui o único a tirar nota máxima, porém, esse não era meu foco, mas consequência. Meu objetivo principal era aprender, tanto que no passado, já tirei 7 ou 8 em história, enquanto que outras pessoas tiraram 9 ou 10 e hoje se me perguntam sobre aquilo que na época errei, mas aprendi com o erro, discorro com tranquilidade sobre o tema e com muito mais informações que aprendi com o tempo, enquanto que a grande maioria dos que tiraram 9 e 10 na ocasião, já não se recordam aquele nome que escreveram, aquela data que decoraram.
    Essa ideia de que o mundo é dos mais espertos, só prevalece por um tempo, pois quando uma esperteza é descoberta, o crédito cai, já quando a perseverança é mantida, os pontos só aumentam.
    Muitos se inspiram em pessoas que não estudaram mas conseguiram ganhar dinheiro, como se dinheiro fosse tudo. Se realmente fosse, não teríamos pessoas ricas votando mal, não teríamos milionários com depressão, não teríamos traição e tantos desastres na vida de quem faz fortuna.
    Muitas pessoas já viajaram a Europa inteira pensando que a Europa era um país - E o que aproveitaram do exterior? Só uma praia ou resort onde ninguém te conhece então não vão pedir uma foto contigo? Mas e a cultura e o contato direto que só falando a língua do lugar poderia proporcionar?
    Vemos da escola à faculdade, passando pelos cursos de modo geral, a célebre pergunta: ''Onde utilizarei isso na minha vida?'', porém, o problema não é a pergunta em si, mas o juízo por trás dela, onde quem pergunta, imagina uma situação prática do dia a dia onde aquilo será usado e sobretudo no que tange ao trabalho.
    O tecnicismo tem chamado muito a atenção dos jovens, pois apresenta oportunidades de ganhar muito em pouco tempo, porém, são os mesmos jovens que correm o risco de eleger um governo que por falta de conhecimento histórico-geográfico, atuará contra os projetos técnicos que eles desenvolvem.
    Muitos alunos numa aula de português, questionam o porquê estudar prefixos e sufixos, não querem estudar a origem das palavras, por isso compartilham postagens lacradoras que dizem que dada palavra carrega um sentido ofensivo, sendo que não há qualquer sentido na referida alegação. Muitos ainda questionam o porquê aprender o que é substantivo, adjetivo, verbo e advérbio, e depois ficam completamente perdidos numa aula de inglês quando o professor diz que o adjetivo precede o substantivo. E isso se a pessoa compreender a palavra ''precede'', pois hoje em dia, temos que ficar como que babás até de adultos, ensinando que a palavra ''precede'' significa aquilo que vem antes, e o aluno questiona se não seria ''antecede'', pensando que a língua se limita ao que ele sabe. E olha que essa pergunta nem sempre vem de criança não!
    Na aula de inglês não é diferente, se você fala sobre temas mais abstratos, como o espaço sideral, temas folclóricos etc, o aluno questiona se numa viagem pra Disney, se ele precisará saber que Netuno em inglês é Neptune. Mais uma vez o imediatismo, que vê o inglês apenas como ''língua do resolve já'' e não um idioma. Há quem estude o inglês e há quem o use como bilhete de viagem. Há ainda quem queira ir para um dado país que fala outro idioma, falando somente o inglês, sem nem aprender o básico de outro idioma e é aí onde passam certos apertos, pois o dinheiro veio, mas o conhecimento ficou de escanteio.
    E ainda voltando no tema do mundo digital, o efeito influencer não é apenas brasileiro, quantos nativos ensinando inglês, como se só o sotaque do país deles e as palavras típicas da região que vivem fossem o padrão. Quantas pessoas que numa entrevista dizem que avaliam que determinada pessoa não fala inglês só porque disse ''I'm fine, thanks! And you?'', querendo que a pessoa use frases mais descoladas, sendo que a pessoa não é descolada nem no seu próprio idioma. Quantas pessoas prometem o inglês ou outras línguas em semanas, mas não esclarecem que um idioma não se restringe ao que vemos diante dos olhos e usamos de maneira prática no dia a dia, mas tem muito mais por trás, e é aí o ponto em que quero chegar:
    O primeiro ponto para tornar um povo alienado, é mudar a forma como que o povo fala, pois atacando-se a língua, depois é mais fácil ter acesso ao pensamento para manipulá-lo, por isso não estranho quando vejo nossa sociedade tratando línguas estrangeiras apenas como ''resolve já's''.
    Vemos muitas pessoas falarem de educação, porém, poucos entram na profundidade do que é o tema. Muitos creem que melhorar a educação é apenas aumentar o salário dos professores, é apenas merenda de primeira, é ter sala de informática e laboratórios cada vez mais tecnológicos etc. Não adianta nada disso se o básico que é o respeito e a disciplina ficarem de fora. O que o professor quer no Brasil, é poder dar aula, sem ser cobrado pelos pais que em alguns casos não conseguem olhar em casa 3 filhos, o que um faz algo com o outro, e querem cobrar do professor que está lidando com 30 pessoas de famílias diferentes durante 50 minutos enquanto tenta desenvolver um tema complexo. Se o pai e a mãe não achou uma solução num dia inteiro com os filhos, o professor é quem tem que achar?
    O professor não quer ser cobrado por diretoria e secretaria pela bagunça em sua sala de aula, ele quer é assistência, pois ele não tem obrigação de ser um general de cara fechada e gritador, ele é professor. O professor não precisa ser um Silvio Santos II para atrair a atenção dos alunos, mas os alunos quem tem que aproveitar o potencial de cada professor como nós aproveitamos os potenciais diferentes dos nossos. Nenhum professor é igual, tal qual nunca um padre é igual ao outro numa paróquia; governos tanto de municípios, estados e do país, são também diferentes, mas devemos aproveitar o positivo que cada um tem.
    A culpa não é do professor que tem que arrumar um jeito de promover uma aula atrativa, mas do sistema que valoriza mais uma coisa que outra. Temos a Olimpíada da Matemática que valoriza a área de exatas e que está mais ligada ao tecnicismo, pois o foco é nas contas e não na grande abrangência que é a Matemática. Projetos de feiras de ciência são fotografados, experiências são valorizadas, mas a aula ordinária do dia a dia de geografia e história não têm valor. Somente quando é feita uma exposição com relíquias e outras coisas visíveis é que alguém liga, mas o pensamento abstrato que deveria ter sido construído no Ensino Fundamental e explorado no Ensino Médio, não tem cartaz. E é com esse pensamento que o aluno irá votar; é com esse pensamento somado a seus valores religiosos que ele escolherá com quem irá se casar, mas é que ele trata a catequese e outras formações da mesma forma que trata a sala de aula; e é com esse pensamento que ele educará seus filhos. É também o pensamento filosófico, sociológico e teológico, que permite a pessoa refletir sob as óticas da história e da geografia, ou seja, o que o mundo vem sendo até se tornar o que conhecemos hoje, que permite que possamos ter visões mais amplas da realidade, não questionando como os terraplanistas, com base naquilo que nossos olhos alcançam a nível imediato, mas aquilo que vai para além do observado, por isso a noção tão necessária do abstrato.

Doutrinação e preocupação dos pais

    Sei que muitos pais se preocupam com isso, sobretudo no que se refere ao Ensino Superior, pois infelizmente, alguns professores das mais diversas disciplinas da área de humanas, estão lá mais para doutrinar que para fazer pensar, porém, se bem educados em casa por pais que valorizam essas áreas, mesmo que não sejam suas especialidades, os filhos saberão reconhecer o que é aproveitável ou não e saberão separar o joio do trigo. O problema não está nas áreas de humanas e linguagens, tampouco faço uma crítica ao apreço maior de muitos das sociedade pelas ciências exatas e biológicas, que também são muito importantes; porém, muitos estudantes têm vergonha de falar que gostam de humanas, pelo cenário que vemos de militância em algumas escolas e universidades, enquanto que nada disso representa a educação, nada disso representa o quão ampla é a área das ciências humanas, que quando bem estudadas, formam cidadãos conscientes e não apenas máquinas prontas a trabalharem para juntarem dinheiro e nunca aproveitarem, e quando aproveitam, disfrutam 1% do que poderiam aproveitar se levassem na mala um maior conhecimento.

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