JMJ - Minha experiência numa Jornada Mundial da Juventede

(Catedral e Basílica Nossa Senhora La Antígua - Cidade do Panamá)

    Em 2019, tive a oportunidade de participar da Jornada Mundial da Juventude no Panamá, evento criado pelo papa e hoje santo São João Paulo II e mantido por seus sucessores. Na ocasião em que participei, o pontífice era o papa Francisco.

(Momentos perto do papa enquanto ele passava pelo papa móvel)

    Jovens e adultos do mundo inteiro se reúnem numa cidade sede, que naquela ocasião foi a Cidade do Panamá, e por meio de catequeses, orações como o terço e a via-sacra, celebrações da Santa Missa, todos nos preparamos para a bênção de envio no final da última celebração da Santa Missa, onde após toda a experiência de fé adquirida, mais nos fortalecemos para nos colocarmos ainda mais em missão.

(Edifício ''El tornillo'' - ''O parafuso'', na Cidade do Panamá)

    O grande diferencial de outros encontros com grande número de pessoas, é que neste, o número é sempre maior, na ocasião que participei, foram mais de 400 mil pessoas na última celebração da Santa Missa, o que na época era a população do estado brasileiro de Roraima, pois o evento não reúne pessoas apenas daquele país, mas de praticamente quase todas as nações de vários povos e línguas, todos unidos pela mesma fé, na mesma unidade: Um só rebanho e um só pastor. O papa representa essa unidade, dando sucessão a São Pedro, o primeiro apóstolo de Jesus escolhido por Ele para administrar a sua Igreja.

(Campo São João Paulo II na Cidade do Panamá, onde ocorreu a vigília e a missa de envio)

    Minha experiência pessoal foi como de Pentecostes, pois vemos pessoas de todos os cantos da Terra trocando lembranças trazidas de seus países, como a comum troca de lembrancinhas que geralmente ocorre no final de uma primeira comunhão ou crisma, todos cantando a uma só voz. O hino de cada jornada, é traduzido para vários idiomas, além ainda de vermos as pessoas das mais diversas línguas, tentando cantar na versão do idioma do país-sede: ''He aquí, la sierva del Señor, hágase en mi según tu palabra.'' (Lc 1,38) - O hino se inspira no ''sim'' de Maria ao projeto de Deus, o qual todos nós também devemos dar, ela que é padroeira do Panamá, no título de Nossa Senhora La Antígua (A Antiga).

(Catedral e Basílica dedicada à padroeira)

    Por falar vários idiomas, tive a oportunidade de me comunicar com pessoas de todos os continentes, em diversas línguas, e ainda, somando à minha formação em geografia, era fácil para mim, identificar as bandeiras dos países e territórios para saber em qual língua me comunicar com cada pessoa ou grupo.

    Em português, meu idioma materno, falei com pessoas de outras partes do mesmo estado que eu, Minas Gerais, e de vários outros estados do Brasil, tal qual falei com pessoas de Portugal, Cabo Verde, Angola, Moçambique, além de dar uma pequena saudação a um peregrino do Timor Leste. A experiência de falar com pessoas no seu idioma materno, não é menos marcante que aquela quando nos comunicamos com pessoas que falam outras línguas, pois é quando pensamos que estamos prestando atenção no sotaque dos outros, que percebemos que os outros também percebem marcas notáveis do nosso, como quando os peregrinos moçambicanos notaram em meu sotaque mineiro, o uso constante de palavras no diminutivo, como ''lembrancinha'' ao invés de ''lembrança'', algo típico do mineiro que fala que vai tomar um ''cafezim'' ou um ''mucadim'' café'', mesmo num calor como do Panamá, mas a gente confia que o sol vai ''isfriar'' um ''poquim''.

    Em espanhol, que falo com fluência, me comuniquei com pessoas do próprio país-sede, o Panamá, além ainda de pessoas da Espanha, do México, da Guatemala, de El Salvador, de Honduras, da Nicarágua, da Costa Rica, de Cuba, da República Dominicana, da Colômbia, do Uruguai, do Paraguai, da Argentina, da Bolívia, do Peru, do Equador, da Venezuela e de Porto Rico (EUA). Também foi o idioma intermediário que utilizei para falar com uma peregrina da Polônia. Tive a oportunidade de ouvir quase todos os sotaques do espanhol nessa experiência, além ainda de ter o referido idioma utilizado como intermediário e não necessariamente o inglês, para me comunicar com alguém que fala polonês e eu português. Outra experiência marcante, foi quando falei com um peregrino do estado americano da Califórnia, onde o espanhol é muito presente, e mesmo eu falando com ele primeiramente em inglês, ele quis viver a experiência em espanhol, o idioma local e também forte em seu estado.

    Em italiano, idioma que falo bem, falei com peregrinos da Itália e também o utilizei como idioma intermediário para falar com um peregrino da Romênia, onde eu falando italiano fui compreendido e também compreendi o romeno. Em outro momento, o diálogo com outros peregrinos da Romênia foi em inglês. O Romeno é inteligível em cerca de 70% para quem fala italiano, e como ainda tenho conhecimento de outros idiomas latinos, o entendimento fica ainda maior. O italiano também é o idioma intermediário utilizado pelo Vaticano quando o papa não fala o idioma do país que visita, o que não era o caso do papa Francisco, que sendo argentino, falou o próprio idioma materno no Panamá, pois o país fala a mesma língua.

    Em francês, idioma que falo moderadamente, me comuniquei com peregrinos da França, da Costa do Marfim, do Canadá (do Quebec), da Burkina Faso, do Gabão e do Haiti. Mesmo não sendo especialista no referido idioma, a comunicação foi possível, ainda que em cada momento, me deparando com diferentes sotaques da língua.

    Em inglês, idioma que também falo fluentemente, me comuniquei com várias pessoas de países e territórios que têm o inglês como primeira ou segunda língua, como: Estados Unidos, Canadá, Jamaica, Anguilla (Reino Unido), Ilhas Cook (Nova Zelândia), Tonga, Austrália, Filipinas, Emirados Árabes Unidos, Zâmbia, Gana, Namíbia, Zimbábue e Samoa, além de utilizar o referido idioma como língua intermediária para me comunicar com pessoas de países que não têm o inglês como idioma oficial ou de facto, como: Iraque, Polônia, Romênia, Alemanha, Países Baixos, Kuwait, Suécia, Coreia do Sul e Eslováquia. Além de ver vários sotaques do inglês, pude ver como várias pessoas falantes de outros idiomas, se comunicam nessa língua.

(Padre Juan Fernando da Colômbia e Padre Edison Campos do Brasil)

    Entre as inúmeras experiências que tive com tantos peregrinos em espanhol, destaco aqui a que tive com o padre Juan Fernando, da Colômbia, que na primeira celebração da Santa Missa que fui participar no Panamá, ele perguntou para mim e para o padre Edison, que me acompanhou na viagem, se nós iríamos celebrar. Respondi primeiramente que não, que só o padre Edison que sim. Ele então exclamou: ''¡Pero usted también!''. Insisti dizendo que não era padre, só o padre Edison; foi então que o padre Juan me catequizou dizendo que eles como padres, presidiriam a celebração com outros padres, mas todos nós, padres ou leigos, celebramos juntos. De fato, pelo batismo, somos todos sacerdotes comuns e compomos uma assembleia sacerdotal. Os padres são ministros ordenadores que receberam o sacramento da ordem, logo são sacerdotes por ministério. Inúmeras outras experiências vivi com os próprios amigos panamenhos que lá fizemos e mantemos contato. Mantenho também contato com amigos de Portugal, Filipinas, Tonga, Cabo Verde e Colômbia, ou seja, de todos os continentes. Um peregrino colombiano colheu meu testemunho, minha experiência na jornada, no metrô da Cidade do Panamá. Uma amiga filipina, custou compreender que meu nome era Raí, devido à palavra ''Hi'' do inglês, pois soa um pouco diferente para quem fala inglês dizer: ''Hi Raí!''. Um australiano me confirmou quem era ''hotter'', isto é, ''mais quente'': A Austrália ou o Panamá - Segundo ele, é a Austrália. No Panamá, famoso por seu canal, temos de um lado o Oceano Pacífico e do outro o Atlântico, trazendo sempre uma brisa, mesmo em meio ao calor de uma região equatorial, isto é, muito próxima à Linha do Equador.

    Na vigília, onde passamos ao relento junto de uma multidão de pessoas do mundo inteiro do sábado para o domingo, pude ver mais uma vez de perto o papa Francisco e pela primeira vez ver o presidente de Portugal, Marcelo Rabelo Souza, que foi até lá, pois a próxima jornada seria em Portugal. Na missa de envio, foi anunciada para 2022, mas como o mundo se recuperava ainda da pandemia que começou na China no final do ano da Jornada no Panamá e se estendeu pelos anos de 2020 e 2021 por todo o mundo, a data foi adiada para 2023, porém, por razões de trabalho, não pude participar do evento.

(Tarde e início da noite da vigília)

    Após a noite da vigília, contemplando o céu do Hemisfério Norte; no dia seguinte, na missa de clausura: a primeira leitura foi lida em português, com sotaque de Portugal, o salmo foi cantado em italiano e a segunda leitura foi lida em francês, as preces foram feitas em várias línguas, entre elas o inglês, e o papa presidiu a celebração em espanhol, com sotaque argentino.

    A mensagem que guardo em meu coração daquela celebração da Santa Missa, foi a de sermos ''jovens hoje'', no sentido de não deixar pra amanhã, não colocar nossa missão de evangelizar em quarentena, mas em prática já.

    Outra grande experiência vivida na jornada, é que os peregrinos não ficam em hotéis, mas em casas de famílias de acolhida, tendo então a experiência de vivenciar por uma semana ou mais, como é a vida diária de uma família do referido país que acolhe o evento. Para mim, conviver com uma família panamenha durante os dias que lá estive, foi algo indescritível, uma experiência única. Mesmo indo com um amigo, o padre Edison Campos já mencionado, cada um ficou numa casa com uma família diferente, o que me permitiu a cada um de nós, mergulhar ainda mais intensamente no que se torna uma experiência ainda mais pessoal, ao mesmo tempo que no evento, todos de todo o mundo, temos uma experiência coletiva.

(Capela São João Batista de Pacora)

    Entre as inúmeras experiências que vivemos com os amigos panamenhos que fizemos, foi a troca cultural, onde nos apresentaram por exemplo o ''raspado'', uma iguaria da linha do sorvete e do picolé, porém, onde se raspa o gelo e sobre ele se coloca uma espécie de xarope doce. E falando em comida, lá é fácil encontra arroz com lentilha e carne de frango, como também uma iguaria típica chamada ''arroz con pollo'' - ''arroz com frango''. Descobrimos também que ''real'' no Panamá é a moeda de 5 centavos, que ''cuara'' é a de 25, ''medio'' é a de ''50'', enquanto que a de 1 é chamada de centavo e a de dez apenas ''diez''.

    Uma grande troca cultural que tivemos foi quando num ônibus voltando do centro da cidade do Panamá no final de uma tarde e início da noite, para o bairro San Juan de Pacora, onde estávamos hospedados nas casas das famílias de acolhida, ensinamos a clássica música utilizada em passeios de ônibus escolares aqui no Brasil: ''Fulano roubou pão na casa do João''. Ensinamos em espanhol para nossos amigos panamenhos que logo pegaram e entraram na brincadeira, começando por nós mesmos, mas quando chegou no padre Edison, só faltava eu e mais poucas pessoas para ele jogar, então jogou para mim, e quando chegou minha vez, acabei jogando para outra pessoa no ônibus de maneira aleatória, olhei para trás e vi um homem usando óculos, como não sabia seu nome, disse: ''el hombre de gafas''. Ele entrou na brincadeira e jogou para outras pessoas, uma delas, que entrou também na brincadeira, foi uma senhora que chamamos de ''nuestra amiga'', pois estava filmando a presença dos peregrinos brasileiros no ônibus. Quando a brincadeira voltou para o meio de nós, um rapaz do nosso grupo, do Brasil, mas de outra parte de Minas Gerais, de Raposos - MG, jogou para o motorista dizendo ''el chofer'', que também entrou na brincadeira e jogou para outra pessoa que estava entrando no ônibus; foi pura diversão.

    Essa foi minha primeira experiência e até então a única no referido evento. Quem sabe no futuro novas experiências virão, pois no ano que se aproxima, já é ano de jornada, dessa vez em Seul, na Coreia do Sul.

    A experiência no Panamá me trouxe várias primeiras vezes: 1ª vez que andei de avião, 1º voo internacional, 1º voo sem escala, 1ª viagem para o exterior, 1ª vez na América Central, 1ª vez num país que fala espanhol, 1ª vez que participo do evento, 1ª vez que vejo um papa e um presidente, 1ª vez que vejo pessoas de tantos países e continentes.

(Canal do Panamá no Mirante de Miraflores)

Um pequeno paralelo para arrematar:

    Em 2024, numa viagem pessoal, viajei sozinho, ou melhor dizendo, com Deus, pela Argentina e pelo Uruguai, indo até à fronteira com o Chile, conhecendo a Terra do Fogo, chamada de Fim do Mundo, e lá mesmo tão longe de casa, a mesma unidade, pois cada vez que viajamos mesmo tão longe, quando adentramos numa Igreja Católica, para quem é desta fé, se sente em casa. Nessa ocasião, pude pela primeira vez, fazer uma leitura na Santa Missa em espanhol, experiência que se repetiu em Luján, cidade argentina na província de Buenos Aires, similar a Aparecida - SP aqui no Brasil, onde fiz a primeira leitura e o salmo na Basílica e Santuário. No Panamá quando lá estive, também visitei o norte do país, na província de Colón, onde vi o mar do caribe e tive mais novas experiências, tudo acrescentando mais na minha vivência. Na capital, subimos o Cerro Ancón e de lá vimos a ponte das Américas, ligando as províncias de Panamá e Panamá Oeste, onde muitos apontam que oficialmente, geograficamente falando, é o encontro entre América do Sul e América Central.

(Capela do Cristo Negro em Portobelo - Colón - Panamá)

    Muito mais coisas eu poderia narrar, mas uma hora temos que parar, mas espero ter registrado muita coisa para o tempo não apagar.


Quer ver um pouco mais de minha experiência no país? Assista o vídeo que publiquei na época e agora republiquei no meu canal no YouTube:

https://youtu.be/bnkpgtzrS6I

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